ANTECEDENTES
Ao me aproximar do jaca, já percebo a localização da residência que fica no meio de uma encruzilhada em T, espaço mundial de contemplação e de comunicação com as pomba-giras. Certo dia, ainda morando em Quixadá, sinto um sono forte durante a tarde, me entrego ao sono, durmo, sonho com uma encruzilhada em T, uma rodoviária, uma pessoa aperta minha mão, as pernas enfraquecem e caio no chã, acordo, dias depois piso em uma cobra, e dia depois me mudo para Fortaleza. Desde então passei a me atentar mais ainda às encruzilhadas e o que elas contam. Então, salve as pomba giras, as rainhas da encruzilhada, laroiê as pombas giras que me elevam em comunicação com as forças que me protegem, me fazem seguir novos caminhos e me fazem acreditar na arte com a vontade e paixão de mudar o mundo e afetar de bons sentimentos as pessoas que comigo conversam e chegam perto. Salve a minha avó Rita, a minha mãe Iolanda e minha irmã Cássia, às minhas sobrinhas Maria Lara, Julia e Liz, ancestrais do passado, presente e futuro, forças que identifico como fundamentais a minha vontade de aprender e continuar mudando.
Antes da residência considerar um projeto alternativo de planetário já era uma realidade, levei em consideração criar um planetário de bambu, de ferro, com canos de pvc e inclusive orcei um planetário inflável para disputar o edital da FUNARTE – retomada. Diante da impossibilidade de dinheiro e espaço para desenvolver essas possibilidades, nada aconteceu, e tive a necessidade de colocar novamente a pesquisa em questão para avaliar meus objetivos e de repente entender se valia a pena continuar com a pesquisa nessa proposta, que era a de criar um vídeo fulldome para exibição em uma estrutura curvada, seja de planetário ou não, já que as constantes dificuldades de acessar esse espaço/suporte de projeção tem feito com que a pesquisa não tenha o andamento que eu esperava.
FAZER DE OUTRO FIM UM COMEÇO
No início do percurso no JACA fomos surpreendidas pela greve da UFMG, o que inviabilizaria qualquer ação direta no planetário da universidade e outras prováveis parcerias neste caminho, acessos prováveis de produção e pensamento inicialmente estabelecidos. Comecei então na residência a elaborar um outro e primeiro movimento, de voltar a ideia de circularidade, de espiral, curva, torção, dobra, bolsa, arco, cesto, círculo, ideias que estão presentes em alguns trabalhos dos últimos anos, essencialmente em Tumba, Pyxuna, Mizu, c.r.i.d.a e fragmento kymera.
Antes de buscar e comprar materiais para trabalhar, sinto a necessidade de escutar o espaço, perceber o que está em volta, reaproveitar materiais, buscar elementos no lixo, enxergar no bairro e no cotidiano como encontrar materiais. No jaca começo a observar os materiais disponíveis no espaço, que matérias torcem, dobram ? Quais têm um formato circular ? Encontrei algumas possibilidades e depois de executá-la por 4 vezes consegui chegar em uma versão final mais elaborada.
Me percebi indo além de criar uma estrutura em formato de cúpula para suporte de projeção, estava elaborando ali a visualização da gravidade no tempo-espaço, que exerce sobre todas as forças do universo uma energia, que curva, que circulariza a matéria e o movimento dela. Começo a pensar também na curva como uma engenharia essencial nos açudes, espaços que a alguns anos venho especulando em minha pesquisa, especialmente os açudes de Orós e de Quixadá. {fotos}
Retornando a prática, o desafio inicial torna-se então brincar com a gravidade e manter essa estrutura estável. Desenvolvo um contrapeso de espelhos que segura e materializa a força gravitacional, que torce os palitos de bambu, que se estabilizam através deste peso e de sua fixação na terra, dessa forma, os palitos sustentam o espelho e o espelho sustenta os palitos em sua curvatura, materializando a força gravitacional.
Após essa primeira elaboração, experimento diferentes terrenos do jaca, diferentes formas de manter os palitos centralizados, e aos poucos vou sentindo que as possibilidades de encontrar a obra nesse caminho vão por enquanto se encerrando e sinto a vontade de desenvolver outra linha de pensamento.
GEOMETRIA E ASTRONOMIA
Durante os estudos de astronomia é quase impossível não encontrar outro campo de estudo, a geometria. A etimologia de geometria é medir a terra. Os povos ancestrais começaram a elaborar o céu a partir da observação da terra e da necessidade de fazer dessa terra brotar alimento e sobrevivência, esses povos percebem que há entre o céu e a terra uma dinâmica própria, um relógio natural que rege todas as coisas, que é resultante de diversos fatores como gravidade, temperatura, movimento da lua, intensidade da chuva e do sol entre outros fatores que se retroalimentam em uma dinâmica própria. É a partir da observação dos ciclos da terra e de medir a terra com diferentes objetivos que a astronomia começa a se tornar uma ciência e dos mesmos princípios e métricas se iniciam a especulações do movimento dos corpos celestes.
Levando isso em conta, comecei a sentir a necessidade de olhar o cotidiano na residência de outra forma. Que horas o sol bate em determinado ponto, que horas faz sombra perto do galpão, que horas determinada flor aparece, que horas os pássaros ficam na árvore. Neste movimento do sol e da terra, retomo ana mendieta como uma referência que até então me vinha como a possibilidade de pensar a presença/vazio de uma noção de corporeidade e a ligação deste debate com a prática performática, uma referência que veio forte em c.r.i.d.a e articulou algumas ideias sobre o meu corpo nessa performance.
Retomando este estudo através de um catálogo que encontro no jaca, sinto a necessidade de cavar com as mãos a terra, de entender esse corpo materializado no chão, de entender os procedimentos da artista, mas com a vontade de materializar a minha cosmo percepção e produzir uma proposta que tenha ela como referência mas que de fato chegue em outro lugar. {fotos}
Sinto a vontade de usar minha corporeidade como métrica de um buraco a se cavar na terra, rose desenha meu corpo em um acrílico rosa que encontramos no jaca, recorto essa peça de acrílico, aplico ela na terra e como um estêncil começo a desenhar a partir dali uma primeira experiência. O resultado ainda se aproxima muito da referência, e me satisfaço ali com o estudo. Vem a ideia do fogo, de adicionar fogo ao desenho, de desenhar com fogo.
RISCAR O CÉU COM PÓLVORA
As fogueiras fazem parte do nosso cotidiano no jaca, especialmente desde o dia que Rose chega, a prática da fogueira vai se tornando mais cotidiana. Assim como na terra, no céu várias movimentações vão acontecendo, os planetas vão se alinhando e no dia 5 de junho, se inicia um período importante para os antigos povos tarairiús e kariris do nordeste, o surgimento das plêiades no céu visível. As plêiades ficam no centro da constelação de Touro, mas na mitologia do céu indígena, ela fica na cabeça do homem velho. São também chamadas de sete estrelas ou vespeiro (eixu), nesse período resolvemos marcar para o dia 7 uma festa de são joão, ofereço o mungunzá como uma comida que é de tradição bantu, que é mais conhecida no interior do Ceará. Enquanto o mungunzá cozinha, resolvi construir um primeiro experimento usando fogo.O resultado não soa como esperava, é difícil manter um formato, um contorno mais afiado que tenha uma cara de desenho, ainda assim insisto e experimento contornar o desenhos (dois círculos), o dia amanhece, começamos os preparativos para a festa que foi super divertida.
No outro dia, de tanto fogo, relembro um pensamento fazendo a fogueira com madeira. Lembro das bombas e das festividades dos fogos do Senhor do Bonfim em Icó, uma atividade que já se arrasta por mais de 150 anos e que me fez pensar na pólvora como acesso ou materialização do fogo. E se ao invés de desenhar criando fogueiras, eu desenhasse usando pólvora ? Vou ao centro de Belo Horizonte, encontro uma loja de produtos religiosos e compro alguns tubos de pólvora branca e pólvora preta.
Faço alguns testes riscando pólvora no tecido algodão 100%, experimento alguns desenhos com circularidade e curvatura. Elaborando no desenhos a curvatura como uma outra experiência da curvatura da primeira pesquisa, torcer a mão, os dedos, a forma, e de novo, e mais uma vez, sentir a gravidade, pensar nas dobras. Experimentei alguns desenhos, estudei ainda um pouco a permanência da pólvora nos tecidos, lavei alguns e deixei outros sujos.
TORCER E DOBRAR A CORPOREIDADE
Nessa elaboração por qual desenho fazer, e de uma busca por uma proximidade e de certa forma um afastamento com a pesquisa de ana mendieta, acabo por descobrir outras camadas do clássico desenho/escultura que ela fazia.
A referência da artista com as deusas com as mãos levantadas, um clássico em sua obra e da arte na antiguidade tem outras representações e possibilidades. Uma das que mais me encantou são as representações de NUT a deusa egípcia da noite, que engole e cospe todos os dias o sol e as estrelas e é representada por um corpo estrelado contorcido em formato de arco.
Ao pesquisar as diversas imagens de NUT, ela é sempre representada como esse arco torcido, representando a abóbada celeste. Como NUT era uma deusa que estava ligada com a primordial passagem ao mundo dos mortos, ela sempre era desenhada dentro dos caixões egípcios. Por uma questão estética e de necessidade, o desenho que representa a Deusa ao invés de ser representado dentro dos caixões como um corpo curvado, é desenhado de outra forma, como se ao invés de vermos a deusa de lado, víssemos ela de baixo.
EU SOU O MEU CÉU ESTRELADO NOTURNO
Após descobrir NUT, relembro uma vontade que tive, ainda no começo da residência, de criar um desenho que remetesse a constelação das plêiades usando pedaços de fita reflexiva. Essa ideia surge lá no começo da residência, quando estávamos visitando a trilha que leva em direção a mina da vale. Lá encontrei alguns eucaliptos marcados com essa fita brilhante. Esses pedaços de fita reflexiva estão presentes também em várias roupas de trabalhadores no Jardim Canadá. Durante o percurso da residência coletei diversos pedaços dessa fita nas ruas de BH, nos cones e placas da BHtrans.
Recortei os pedaços e colei em mim e fiz algumas fotos com a serra do rola moça ao fundo, e outras fotos na estrada que liga o jardim canadá a BH. Tive ajuda de algumas amigas do Bolsa Pampulha que convidei para participar da performance e depois fomos todes para o JACA beber e conversar um pouco sobre tudo, concluindo esse primeiro ciclo da residência.



















