RELATÓRIO FINAL RESIDÊNCIA JACA MÓDULO 3: QUANDO O VAZIO VIBRA/ EXPLORAÇÕES SONORAS
NOME DA ARTISTA: SANARA ROCHA
PERÍODO DA RESIDÊNCIA: 11 de Maio A 11 de Julho de 2026
Eu almejo que esse texto, mesmo breve, pareça menos com uma relatoria técnica e mais com uma conversa sobre escolhas e processos artísticos, ou melhor sobre as minhas escolhas durante o processo de pesquisa e composição de “Afaradi Iyá” uma cartografia escrita sobre as águas da memória erótica que correm dentro de mim e sobre como o som atua como força organizadora dos fluxos dessas águas.
Então, preciso dizer de onde eu parti, o que eu buscava, quais perguntas eu tinha interesse em responder e a partir dessa busca o que eu encontrei, a partir de quais vivências. Pois entendo que “Afaradi Iyá” é um rio caudaloso de grandes proporções que se bifurca várias vezes, criando braços d’água, afluentes sinuosos, menos densos, mas igualmente potentes.
Três pilares fundamentaram essa pesquisa. Já que trabalho com o conceito de cartografia, entendo que esses pilares conceituais serviram como bússolas, norteando o curso de minhas águas: (I) o Erotismo, pela perspectiva de Audre Lorde, como algo que vai além da sensação física ou do ato sexual, erotismo como magnetismo, força de atração; (II) as águas fossilizadas em meu corpo, isto é: as memórias sexual-afetivas grafadas no meu corpo; (III) A ancestralidade, que entendo como plataforma de experimentação que se atualiza continuamente através da capacidade maquínica do meu corpo processar esse software/programação no espaço-tempo. -Eu sou ancestral!- penso assim, e por isso a ancestralidade é performance da presença, porque eu vivo agora. E Oxum é uma força ancestral que se manifesta em mim na medida em que transduzo as águas das minhas memórias eróticas em energia mecânica, som.
Meu desafio inicial se norteou pelas seguintes perguntas: como explorar o erotismo de uma maneira radical fazendo do som e da composição sonora artefatos de produção do prazer? Como compor eroticamente, ou seja como compor lançando mão do magnetismo do qual todo erotismo é dotado?
Atrás de respostas para tais perguntas, que só poderiam ser maturadas através do corpo, me permiti vivenciar as festas noturnas da cidade de Belo Horizonte, a trocar afeto com pessoas desconhecidas e conhecidas, a dançar, conhecer a cena sonora e os espaços festivos e afetivos localizados ao Centro de BH, onde as pessoas se aglutinam a fim de curtir a noite, paquerar, celebrar a vida, enfim.
Cada uma dessas zonas de celebração (vou chamar assim os espaços fechados e públicos (rua) onde há música e interação entre as pessoas da cidade) afetou o meu processo de pesquisa, muito além do que eu esperava e gerou narrativas sonoras que partem das memórias arquivadas em meu corpo e podem ser reconhecidas nos experimentos sônicos resultas dessa pesquisa. Para ser breve, vou destacar aqui três experimentos, são eles: “CHILLS!”, “Montada Nua Sobre A Cauda Do Escorpião Segurando Antares Nas Mãos” e “Afaradi Iyá”.
O primeiro, nasce de uma narrativa breve em palavras que ficou girando na minha cabeça, depois das vivências na Festa “Fogo No Rabo”, no Centro de BH logo no primeiro mês de residência. As palavras se tornaram em melodia e ritmo a partir de experimentações em looping no pedal envolvendo minha voz, os tambores, agogôs e claves de uma maneira livre. Depois de uma série de repetições, as palavras e memórias encarnadas foram se organizando como uma narrativa sônica com uma voz ainda imprecisa em termos melódicos, sem base harmônica consistente.
O primeiro passo que dou antes de uma nova composição, sempre parte de gravações em looping ora feitas com minha voz microfonada ora com as vozes das materialidades percussivas disponíveis, até que o próprio som organiza tudo em melodia, harmonia, canção que pode ou não ser desconstruída. CHILLS! nasceu assim, previamente, e disponibilizo um arquivo de áudio que mostra um esboço da pulsação sobre a qual experimentei cantar/contar, mesmo com imprecisões técnicas, uma situação que vivi cartografando com o corpo as noites de BH.
CHILLS! rascunho I
Esse rascunho de Chills segue em processo de escavação sônica, mas a pulsação dela e o cerne da narrativa que quero contar/cantar, estão aí.
O segundo experimento me possibilitou pesquisar mais, experimentar organizações sonoras diversas, inclusive pude apresentar diferentes versões para um público externo, durante as lives coletivas que as parcerias institucionais do JACA possibilitaram ao grupo da minha sessão de residência. Desde o princípio, com “ Montada Nua Sobre A Cauda Do Escorpião Tendo Antares Nas Mãos” eu tentei explorar sonoridades familiares ao campo do erotismo, da putaria e da cultura sexual, buscando dar uma roupagem nova e autoral a isso. A primeira versão dessa peça traz um clipe percussivo de uma Tabla indiana como base e sobre ela eu mixo orgasmos femininos reais junto a um motivo harmônico tocado com um timbre de flauta. Tudo soou muito tântrico e embora parte da minha pesquisa também perpasse esse universo, isso me incomodou um pouco. Cheguei a apresentar essa versão na primeira LIVE coletiva que realizamos no Salão Libério Neves, logo no primeiro mês de residência. Eu experimentei loopar a minha voz sobre o mesmo tema melódico, mas na ocasião não consegui trazer à cena os orgamos. Por fim, senti que alguma coisa ainda precisava ser investigada, talvez discutida em termos políticos. Eu queria criar uma sinalização dentro desse trecho cartográfico que não deixasse margem para as pessoas ouvirem essa peça sonora em contextos não presenciais, sem identificarem a subjetividade por trás dela, que é a de uma “Puta Preta”. É a subjetividade de uma mulher preta, periférica, brasileira que gosta de sexo, de erotismo e putaria e que decidiu começar uma pesquisa no campo da experimentação sonora nesse sentido em uma sociedade onde sexo, erotismo e putaria sempre esteve disponível para as mulheres negras em detrimento de afeto, casamento e amor romântico (Que nó!). Foi assim, que a parte introdutória da peça surgiu, eu mexi no pitch do sample da tabla tornando o som mais eletrônico e ruidoso e experimentei cantar algumas palavras na levada de um funk:
A mulher Preta que Gosta de dar!
A Mulher Preta que gosta de dar!
Quem come a buceta dessa Deusa Preta que você respeita, mas não quer casar?
A mulher Preta que Gosta de dar!
A mulher preta que gosta de dar!
Precisa escolher entre fechar as pernas, ter um anel no dedo ou se lambuzar e gozar,
Gozar, gozar!
Depois que essa intro cantada em ritmo de funk se agregou a essa peça sonora, ela ganhou mais corpo e sentido, o que se ampliou com o olhar, interpretação e colaboração de DJ Glau durante as nossas imersões sonoras coletivas. A virada de chave final aconteceu na Live que realizamos no Museu da Pampulha, no segundo mês de Residência Artística, onde eu experimentei pela primeira vez tocar toda a peça harmônica que tinha composto e mixar os orgasmos sobre um beat de funk de 130 BPMs proposto por Glau. Eu penso que essa peça encontrou sua alma ao abrir mão de flertar com o universo sonoro indiano para se reencontrar com a minha identidade sonora de mulher preta, periférica, brasileira que vive em uma cidade (Salvador, Bahia) onde o funk e o pagodão são sonoridades muito presentes no cotidiano.
Disponibilizo abaixo um rascunho pocket com os princípios sonoros que norteiam essa investigação que mencionei e que segue sendo maturada.
Montada Nua Sobre A Cauda Do Escorpião Tendo Antares Nas Mãos
Por fim, devo falar brevemente do Experimento final, mais longo e resultante de todos os estudos, vivências e mentorias ocorridos ao longo dos meses do processo de residência, intitulado “Afaradi Iyá” o mesmo nome da pesquisa.
No meio do caminho havia as águas, havia as águas no meio do caminho.
“Afaradi Iyá” o embrião, foi gestado por muitos ventres, entendo assim, Paola, Pode, Rafa RG, Gil Amâncio… Mas a mentoria de Paola Oliveira foi crucial para que isso nascesse, primeiro nas águas do meu inconsciente, quase como um sonho, até encontrar maneiras de se tornar em som táctil. Mas como todo parto, doeu muito esculpir esse corpo sônico no espaço- tempo- mundo. Doeu no peito, na lama da alma onde minhas memórias eróticas e sexuais se misturam com os traumas, saudades, mágoas, faltas…
Quando Paola me sugeriu buscar dentro de mim, das minhas memórias mais íntimas, as cenas eróticas que deveriam nutrir a minha pesquisa, eu me lancei em um mergulho tão profundo pra dentro que voltei a tona com algo mais do que queria nas mãos. Voltei sem ar, no caminho me perdi em inúmeros blue holes, me mutilei em recifes, talvez tenha chegado nas fossas marianas, de forma tal que quando emergi muito do líquido salgado em meus olhos era meu e não do mar. Criar é um trampo, né? Principalmente quando a gente tem que lidar com nossas regiões mais abissais. Foi quando o vazio vibrou pra mim, o vazio do silêncio e da escuridão absoluta, o vazio da ausência de gravidade. Quando eu deixo que águas retesadas no fundo do fundo de mim passeiem livremente, troquem de lugar com outras, migrem e voem o vazio começa a vibrar.
Em busca das águas eróticas eu encontrei com as águas dos olhos de minha mãe, que fez sua passagem em 2019; encontrei com as águas do mar de Itapuão onde eu troquei fluídos, saliva e juras de amor eterno; encontrei com as águas revoltas, turvas e banzeiras que querem matar e afogar gente quando são contrariadas; com as águas escuras, lamacentas que quase me afogaram quando eu era uma criança de colo (sonho com essas águas até hoje) e por aí lá vai… Eu me perdi no caminho com tantas memórias doloridas e a investigação se esvaiu por entre meus dedos por alguns dias. Foi quando as águas de Brumadinho encontraram um meio de me puxar de volta para baixo, para um mergulho ainda mais profundo, só que dessa vez sem medo de encontrar destroços naufragados. Foram as águas externas, águas encantadas de um poço, que fizeram isso por mim, e eu agradei a elas com melão, lágrimas e fé – no amor, inclusive, porque putas também amam, afinal.
Depois desse mergulho eu voltei à tona montada sobre o tambor. Trouxe ele à cena como base rítmica em forma de um sample do meu tambor rum tocado por mim, um sample que eu tinha gravado há muito tempo atrás. O desafio tornou-se em não ceder à força sagrada/religiosa que emana dessa entidade que é o atabaque. Ou melhor, tornar essa força em um veículo por onde a minha potência sexual também poderia se expressar. Não consegui isso de primeira, porque as memórias traumáticas, as frustrações com o contexto conservador e recatado de BH também desmobilizaram um pouco a minha energia. Contudo o último JACAFEST, evento de despedida e encerramento do nosso ciclo de residência, reacendeu minha chama interna. E da interação com o nosso público, das tensões sexuais que aconteceram entre mim e algumas pessoas presentes em forma de troca de olhares, sorrisos e jogos de sedução – por vezes explícitos, inclusive em forma de palavras. Toda essa energia seducente, mais do que o coito em si, alimentou o meu fluxo criativo nos caminhos do erotismo sonoro, pois há mais do que o desejo envolvido, há magnetismo, excitação de elétrons no corpo, aumento de temperatura… física pura! Erotismo quântica. Depois dessa festa eu tracei alguns caminhos que me permitiram fazer uma travessia sobre o tambor que não recaía em lugares comuns sobre ancestralidade preta feminina, candomblé e tambores consagrados. E a imagem que me norteou nesse retorno, retomada, reinício, foi a minha própria imagem, montada sobre o meu tambor maior, o rum, de pernas abertas, tocando no couro com mãos untadas de dendê tendo um barco flutuante sobre a minha cabeça. Essa é a imagem que eu vi quando, após um ciclo de experimentações com samples de água, fiz ressoar o sample do tambor, como se ele emergisse do fundo delas. O som que verte da boca “embucetada” do tambor entre minhas pernas em forma de ondas, expressava desejo e assim subvertia o estigma redutor que culturalmente, ao menos no ocidente, foi atribuído à buceta preta vista ora como um “órgão genital” que pode ser “fodido” sem amor ora como um “órgão reprodutor” por onde pode-se gerar “mão de obra servil”. O tambor-embucetado consiste em um desvio, uma fuga por onde a subjetividade e intelectualidade negro-feminina também pode se expressar como sujeito desejante – do gozo, do prazer e do sexo livre-, ao mesmo tempo em que o imaginário sagrado do tambor age sobre essa dimensão humana que o sexo evoca sem os moralismos habituais atribuídos ao tambor na esfera afro religiosa.
Muitos fundamentos teóricos atravessam Afaradi Iyá que hoje entendo é uma cartografia erótica escrita sobre as linhas d ‘água fossilizadas dentro de mim. Essa obra é a espinha dorsal que organiza todas as demais composições, é o corpo de água principal e tudo mais que foi ou será composto nesse sentido, consistem em seus afluentes.
Abaixo disponibilizo uma pílula sonora que mostra parte do primeiro esboço de Afaradi Iyá.












