A escuta do fazer com Vita Pereira

A escuta do fazer com Vita Pereira




O que o processo de Vita Pereira revela sobre VITA’S HOUSE 

JA.CA – Centro de Arte e Tecnologia

Por José Lucas

Há algo de íntimo em ser recebido dentro de uma casa antes que ela esteja pronta. Antes que os cômodos tenham nome, antes que as paredes encontrem sua cor definitiva, antes que se saiba exatamente o que cabe em cada espaço. Foi isso que aconteceu quando Vita Pereira abriu, pela primeira vez ao público, o processo de criação de VITA’S HOUSE — seu primeiro álbum solo — no encontro que inaugurou o programa “A Escuta do Fazer”, no JA.CA.

O programa existe precisamente para isso: não celebrar obras acabadas, mas escutar o que as torna possíveis. E naquele encontro, o que se tornou possível escutar foi algo raro: uma artista disposta a mostrar não só o que construiu, mas o modo como aprendeu a construir de outra maneira.

A noite começou com Rafael RG, que abriu o encontro propondo um deslocamento: pensar o processo não como caminho rumo a um fim, mas como permanência no que ainda não se resolveu. Criar, nessa perspectiva, deixa de ser a tentativa de completar algo que falta e passa a ser a disposição de entrar em transformação, mover matéria, mover linguagem, mover a si mesmo. A repetição não é reprodução, mas deslocamento, onde cada gesto retorna diferente e cada tentativa abre novas possibilidades. Essa fala funcionou como uma espécie de chave para tudo que viria depois: uma moldura que Vita não só confirmaria, mas investigaria ao longo de sua conversa.

Quando recebeu a palavra, Vita começou pelo manifesto escrito por Castiel Vitorino Brasileiro, um texto que ela descreveu como portal sensível para o universo de VITA’S HOUSE. Antes de qualquer explicação sobre o álbum, antes de falar sobre produção ou faixas, ela ofereceu ao público uma camada de linguagem que evoca o que sustenta tudo: um corpo que celebra, um quarto onde a voz se experimenta como prática de afirmação, uma casa que se constrói, se desfaz e se refaz continuamente. Esse gesto já dizia muito sobre o método: a obra não começa pela técnica, mas pelo sentido.

Vita tem formação técnica em edificações. E quando ela começa a falar sobre o processo do álbum usando essa linguagem — terreno, fundação, estrutura —, não soa como metáfora decorativa. Soa como método. Antes de qualquer faixa, houve escolha de terreno. E o terreno, nesse caso, é biográfico: Minas Gerais, o povoado de Cruzeiro, próximo a Governador Valadares, onde nasceu; Belo Horizonte como ponto de inflexão, lugar onde a primeira música do álbum foi gravada e onde, não por acaso, ela escolheu compartilhar pela primeira vez esse processo criativo. Havia algo significativo nesse gesto: estar em BH para falar sobre o processo pela primeira vez era também uma forma de nomear as fundações afetivas dessa construção: a família, a história, as pessoas que compõem a base sobre a qual a casa se ergue. Esse retorno às origens não é nostalgia, é fundação. E no álbum lançado no dia 13 de abril de 2026, isso se materializa logo de início: VITA’S HOUSE se abre com SANTO FORTE, faixa em que Vita pede proteção, como quem, antes de entrar em casa, faz um pedido ao que a precede.

Dali, o processo foi se revelando como algo construído coletivamente, atravessado por convivência e presença física. Vita descreveu uma insatisfação com processos mediados pela distância, colaborações onde as pessoas nunca dividem o mesmo espaço, o mesmo tempo, o mesmo cotidiano. E propôs o oposto: imersão. Períodos inteiros de convivência, chegando a reunir mais de quinze artistas numa mesma casa, acordando, cozinhando, dormindo juntos, antes que qualquer música fosse feita. A música, nessa lógica, não é ponto de partida, é consequência. É uma recusa das lógicas de mercado que operam por fórmulas consolidadas, mas é também algo mais simples e mais difícil ao mesmo tempo: a aposta de que o que se faz é inseparável de como se vive enquanto se faz. Esse caráter relacional aparece na textura do álbum pronto. TREME A LÍNGUA, com Candy Mel, carrega essa sensação com particularidade: a entrada da voz de Candy não soa como participação especial, mas como alguém que já conhecia os cômodos da casa antes de entrar.

O que foi se desdobrando ao longo da conversa foi também um reposicionamento mais amplo: o de não colocar o homem como elemento central da narrativa, de não deixar certas normativas definirem sua trajetória, de ser maior do que as categorias que tentam nomeá-la. Vita falou sobre como a sua pesquisa — vivida, incorporada, impossível de ser feita de fora — sustenta o que ela chama de “estética da putaria brasileira”, uma linguagem artística e um posicionamento ético ao mesmo tempo. Não se trata de provocação, mas de afirmação: um corpo que sabe o que quer e nomeia isso com precisão. Nomear-se, ela disse, é um ato político. VITA’S HOUSE — o nome como casa — carrega aprendizados vindos de trajetórias de mulheres negras que reivindicam nome, história e autoria. E o álbum honra isso também nas colaborações: Urias, Candy Mel, Linn da Quebrada — artistas travestis que habitam essa casa não como convidadas de passagem, mas como parte da estrutura.

A voz foi outro território que Vita nomeou como lugar de transformação. No novo projeto, a expressão vocal se expande para além dos registros conhecidos das Irmãs de Pau: outras intensidades, outras possibilidades, um espaço onde não é mais preciso gritar para ser ouvida, e onde o sussurro, quando aparece, tem tanto peso quanto o grito. Essa mudança veio acompanhada do teatro, de outras artistas, de experiências que alargaram o que ela entendia ser possível dentro de uma música. A dúvida, como Rafael RG havia proposto no início da noite, sustentou tudo isso — não como fragilidade, mas como força produtiva. E Vita, ao longo de sua fala, foi mostrando como é possível habitar a incerteza sem paralisar: testando, deslocando, insistindo.

Então ela foi descrevendo os cômodos. O banheiro veio primeiro, e não por acidente. Para Vita, o banheiro é um dos lugares mais fundamentais de sua trajetória: foi lá que ela construiu sua sexualidade, inventou seu gênero, usou a toalha como cabelo e a parede como vestido. Um palco sem plateia, onde era possível ser quem se imaginava ser. Essa dimensão íntima e política do banheiro — espaço de invenção de si, mas também de disputa e exclusão — atravessa o álbum desde as primeiras faixas, que partem de uma música de proteção e chegam a um momento de disforia diante do espelho. Do banheiro, a casa se move para o quarto: lugar de desejo, de se arrumar para o rolê, de afeto e de dignidade. A sala chega como a balada de dentro de casa, o espaço das músicas que fritam e chamam a amiga para dançar. E o quintal, que Vita comparou ao fumódromo da balada, é o lugar das conversas sobre o que não entra, o que essa casa não autoriza, o que ela recusa abrigar.

Ao final da noite, Vita abriu a conversa para o público. Perguntas sobre pesquisa, sobre metodologia, sobre o que as pessoas esperavam do álbum. Houve trocas sobre o banheiro como espaço político, sobre as linguagens que atravessam o projeto, sobre o compromisso com a arte para além do sucesso imediato. Essa troca já era, ela mesma, parte do processo: a noite não se encerrava com uma apresentação, mas se desdobrava em algo mais parecido com uma habitação coletiva daquele espaço. E quando alguém perguntou onde ela queria chegar com esse projeto, Vita foi direta: queria que, daqui a dez anos, pessoas travestis, negras, dissidentes estivessem produzindo e ocupando espaços. Queria que a casa não fosse habitada só por ela. Que o pão fosse farto e para todos.

Vita propôs o álbum como um ambiente a ser percorrido, e as músicas se distribuem como cômodos, cada faixa carregando uma situação, uma atmosfera, um gesto. Ouvir VITA’S HOUSE depois de ter estado naquele encontro é uma experiência diferente. Não porque o processo explique a obra — os processos não explicam obras, e talvez seja esse o ponto central de tudo que foi dito naquela noite. Mas porque a generosidade de compartilhar a construção amplia o que se consegue escutar no resultado. Sabe-se de onde vem a fundação. Reconhece-se a escolha do terreno. Entende-se por que certos cômodos têm as paredes que têm. E, ao mesmo tempo, a casa continua sendo dela: habitável por quem quiser entrar, mas construída a partir de uma identidade que não se apaga para acomodar ninguém.

 

A Escuta do Fazer é um programa público do JA.CA – Centro de Arte e Tecnologia que acompanha processos artísticos em curso por meio de encontros mensais com artistas convidades. Em 2026, o programa se organiza em torno do eixo “Quando o vazio vibra”.

 


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