Viagem pelo vazio por Leticia Naves

Viagem pelo vazio por Leticia Naves




No centro da sala, três mesas se olham de frente e formam um triângulo. Em cima de cada mesa, as ferramentas de trabalho de cada um dos três artistas em residência no JA.CA. Sanara Rocha está equipada com um tambor falante, um laptop conectado a uma mesa de som, um adjá, um tamborim, duas baquetas, dois caxixis, guizos, três agogôs de cores diferentes e, no canto — talvez o mais importante —, um microfone. À frente da mesa, um atabaque. No chão, vários fios e um sintetizador de pedal. Na mesa de Letricia Ventim, uma mesa de som, um sintetizador e um caxixi; apoiado à mesa, um berimbau. Por último, sobre a mesa de Glau, a mais enxuta das três, só um notebook e uma pequena controladora com teclado. Cada um com seus trajes e suas ferramentas — Glau de gravata e óculos de sol com lentes claras, Sanara num conjunto de couro com camurça e argolas douradas, Letricia de roupas brancas, pés descalços, brincos de pena. Os instrumentos ecoam as vestes, que ecoam as pessoas. 

Enquanto o público entra, o espaço é iluminado por holofotes brancos que piscam em ritmo lento. Funcionam como o aviso sonoro que toca três vezes antes de uma peça. Uma vez que todos estão acomodados, a luz muda para um tom amarelo quente, focada sobre os três músicos, que já estavam tocando desde antes do público chegar, aquecendo: Sanara no atabaque acompanhada pelo berimbau de Letricia e pelas batidas suaves que saem do notebook de Glau.

O som criado pela sobreposição do que é produzido por cada um dos três artistas me lembra uma longa viagem de carro — uma meditação pouco tradicional, uma meditação quase acidental, fruto de três artistas que pesquisam o tempo em forma de áudio. Ecos e repetições se empilham como montanhas numa paisagem. Assistir à criação de um som ao vivo, sem outras distrações ou mecanismos, parece induzir um estado de transe que não precisa ser descrito porque é impossível descrevê-lo: névoa, montanhas, estrada. Um percurso auditivo. Sanara com seus sons afro-futuristas mistura a própria voz em eco às batidas que criou no tamborim e entra no som originário do berimbau de Letricia, que por vezes também produz ecos no sintetizador. Ambas viajam junto às batidas lentas de Glau — que busca os olhares que nem sempre coincidem —, e que só introduz o funk carioca, seu principal foco de pesquisa, quando o experimento passa da metade. Nesse momento, quando a batida do funk entra de mansinho, é notável que o corpo de quem escuta finalmente entende uma possibilidade de dançar. Os ombros se mexem. No entanto, ninguém se levanta.

Antes disso, apenas assistiam. O público é mineiro, majoritário na plateia hoje — cerimonioso, atento, escuta com perninhas cruzadas e mãos nos queixos. O fato de nenhum dos três artistas serem de Minas Gerais convida à reflexão sobre como os mineiros apreciam arte. Glau é carioca, Letricia e Sanara são baianas. Estão todos longe da praia. O tapete com almofadas no centro do triângulo — o ponto mais aconchegante de toda a sala — demora para ser ocupado. No meio do tempo, uma das espectadoras finalmente se levanta e se senta ali, prontamente acompanhada por dois amigos. Sua vaziez até então diz de uma gente tímida.

A experimentação faz jus ao nome da residência. O vazio vibra desde as caixas de som, controladas por Sanara, que ficam no limite de passarem do limite. O vazio vibra desde o oco do berimbau de Letricia. O vazio vibra pelo som eletrônico de Glau, que convida com ritmo cuidadoso à dança — seja ela mental ou física. Tambores, caxixis, agogôs, atabaques e berimbau dividem espaço com controladoras, sintetizadores, mesas de som e computadores. O microfone de Sanara, no canto, espera seu momento de ecoar. Quem passeasse pelo espaço sentiria o mote da residência na prática: o ar vibrava nas caixas de som ecoando aquilo que se projetava. Som afro-futurista, tecnoriginário, transfunkeiro — os três juntos, em futuro, presente e ancestralidade.

Alguns momentos notados e notáveis: o tamborim quebrando o caminho ao transe, sacudindo o ar, ácido em molho suave; Letricia fazendo do berimbau um violino — gente nova, coisa nova, nada precisa ser como é; a batida do funk chegando de mansinho, e os corpos se lembrando que sabem dançar essa dança. O trio que se nomeia em duplas — Glautrícia, Lenara, Sanglau — é, junto, um só: três de um, e em cada um, o mundo.

Assistir a uma experimentação demanda paciência. Esse som não é de dançar, não tem ensaio, é o subir de um transe. É som de pensar, de sentir. E essa noite foi uma viagem à praia: quando, depois de horas, se vê o mar e se pode finalmente respirar a brisa salgada. 


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