Para este módulo, nossa pesquisa curatorial se desdobra a partir das órbitas dos planetas.
Os planetas escrevem suas memórias em órbitas, deixando no espaço o rastro de seus retornos. Cada volta inscreve uma duração: algo retorna, mas nunca exatamente ao mesmo ponto, porque o próprio universo também está em movimento.
A escrita pode ser pensada desse modo — como um gesto que registra passagens, aproxima tempos distantes e cria caminhos para aquilo que ainda precisa chegar.
Em 1770, Esperança Garcia escreveu uma carta ao governador da Capitania do Piauí denunciando as violências sofridas por ela, por seus filhos e por outras pessoas escravizadas. Também reivindicava o retorno ao lugar onde vivia com o marido e podia participar da vida religiosa.
Talvez Esperança não estivesse tentando “fazer literatura”, mas sua carta contém algo central ao gesto literário: organizar a experiência, construir uma voz e imaginar que as palavras poderiam atravessar uma distância até alcançar alguém capaz de modificar o destino de um corpo.
A carta se torna, assim, uma espécie de órbita: parte de um corpo submetido à violência, atravessa o espaço colonial, desaparece por séculos dentro de um arquivo e retorna ao presente carregando a memória de seu movimento.
Escrever também pode ser enviar alguma coisa a um tempo que ainda não conhecemos, sem saber quem irá recebê-la nem quais sentidos ela poderá produzir quando voltar a circular.
Em outra direção, a figura que hoje reconhecemos como Xica Manicongo chega até nós por meio de uma escrita que não foi produzida por ela, mas contra ela.
Em 1591, durante a Primeira Visitação do Santo Ofício à Bahia, denúncias e registros inquisitoriais documentaram a presença de uma pessoa negra, africana e escravizada cuja expressão de gênero e sexualidade escapava às normas coloniais. Esses textos não preservam sua voz: preservam a linguagem daqueles que buscavam vigiá-la, enquadrá-la e puni-la. Ainda assim, fizeram sobreviver os vestígios de uma vida que o poder pretendia reduzir a uma acusação. A figura que hoje chamamos Xica Manicongo foi retomada por ativistas, artistas e pesquisadoras como uma referência fundamental para a memória trans e para a história LGBTQIA+ brasileira.
Também aqui o arquivo se torna uma espécie de órbita. Produzido como instrumento de controle, atravessa os séculos e retorna carregando algo que excede sua intenção original.
O documento que pretendia fixar Xica como desvio acaba revelando sua presença, sua dissidência e sua recusa. Ler esses registros no presente exige deslocar o centro da narrativa: não repetir o olhar inquisitorial, mas buscar, nas lacunas de uma escrita hostil, os sinais de uma existência que resistiu a ser completamente apagada.
Para James Baldwin, a escrita era uma maneira de atravessar as imagens que o mundo havia construído sobre as pessoas negras e encontrar, por trás delas, vidas ainda não inteiramente narradas.
Escrever não apagava a violência da história, mas recusava que essa violência determinasse todos os modos possíveis de existir. Ao recuperar vozes, desejos, contradições e memórias, a literatura fazia da experiência negra não um destino fechado, mas um campo vivo de invenção.
Baldwin entendia o trabalho do escritor como uma busca por aquilo que ainda não se sabe e como uma contestação das definições impostas pelo mundo branco.
Essa relação entre escrita, orientação e construção também pode ser encontrada em Seshat, uma das mais antigas divindades egípcias associadas à escrita, aos livros, à medição, à arquitetura e à preservação do conhecimento. Seu nome pode ser entendido como “Aquela que Escreve”.
Nos rituais de fundação dos templos, Seshat participava da cerimônia de “esticar a corda”, pela qual se mediam e se traçavam os eixos da construção.
Escrever, medir o chão e orientar uma estrutura faziam parte de um mesmo gesto: antes que algo pudesse ser erguido, era preciso imaginar suas linhas, relacionar o território ao cosmos e produzir uma forma para aquilo que ainda não existia.
Mas nem toda escrita busca ordenar o mundo.
As composições de Negro Leo podem ser entendidas como registros vivos dos tempos caóticos que atravessamos. Nelas, a literatura pode surgir daquilo que escapa à estabilidade: a voz, o ruído, a improvisação, o corte, a repetição e as linguagens que circulam pelas ruas e pelas redes.
Sua escrita parece captar a temperatura de uma época justamente porque não tenta eliminar sua confusão. Em vez de explicar o presente, preserva algo de sua matéria: as interrupções, os excessos, as urgências e as desorientações.
Com Leci Brandão, a canção também se apresenta como forma de escrita e de invenção de uma vida possível.
Mulher negra e lésbica em um território historicamente masculino, Leci fez do samba um espaço para cantar o amor, o desejo, a cumplicidade e as muitas formas de construir vínculos.
Em sua trajetória, o íntimo nunca esteve inteiramente separado do político: suas composições atravessam o racismo, as desigualdades, a liberdade sexual e a dignidade das pessoas LGBTQIA+.
Ao tornar públicas essas experiências desde a década de 1970, Leci ampliou não apenas aquilo que o samba podia dizer, mas também quem poderia ocupar o lugar de autoria dentro dele.
Há algo profundamente emancipador na imagem de uma mulher negra e lésbica cantando o amor no samba. Não porque suas canções precisem sempre declarar a identidade de quem ama, mas porque sua própria voz desestabiliza a ideia de que o amor, o desejo e a delicadeza pertencem somente a determinados corpos.
Cantar o amor também pode ser disputar o direito de vivê-lo, nomeá-lo e fazê-lo circular publicamente.
Essa disputa também aparece na escrita de Raven Leilani. Sua literatura é sexy não apenas porque escreve sobre sexo e desejo, mas porque há algo corporal na própria linguagem: uma prosa veloz, afiada, engraçada, desconfortável e atenta às fricções entre intimidade, raça, trabalho, precariedade e poder.
Em vez de transformar a mulher negra em personagem exemplar, moralmente íntegra ou destinada a representar toda uma comunidade, Leilani permite que ela erre, deseje, fracasse, se contradiga e procure formas imperfeitas de conexão.
A própria autora afirmou que desejava escrever uma mulher negra que falhasse e cometesse erros, sem construí-la como uma figura moralmente impecável.
Sua escrita captura o tempo porque reconhece que a vida contemporânea se passa simultaneamente no corpo, no trabalho, nas telas, no dinheiro, na solidão e no desejo.
A emancipação não aparece como uma chegada limpa ou definitiva, mas como a possibilidade de existir sem precisar corresponder às imagens de força, respeitabilidade ou coerência que costumam ser impostas às mulheres negras.
Entre Leci Brandão e Raven Leilani, a escrita se torna um lugar onde mulheres negras podem cantar e narrar o amor sem pedir licença, fazendo do desejo não uma prisão ou um destino, mas uma força capaz de abrir outras formas de presença no mundo.
Escrever pode ser orientar uma construção pelas estrelas, enviar uma mensagem através da distância, guardar a confusão de uma época, fazer retornar uma vida preservada involuntariamente por um arquivo de violência ou cantar um amor que o mundo ainda não aprendeu a reconhecer.
Como as órbitas, essas escritas atravessam o tempo: retornam carregando memórias, desejos e ruídos, encontrando novos corpos e desenhando outras possibilidades de existência.


















