ROTAS DE IMERSÃO

ROTAS DE IMERSÃO




ENTREVISTA COM TROJANY

 

por Daniel Toledo

Conversa realizada em 17 de junho de 2024

Nascida em Icó, pequena cidade situada no sertão central do Ceará, próxima à fronteira com o Rio Grande do Norte e a Paraíba, Trojany traz em seu corpo muitos anos de experiência com o cinema, tendo atuado como realizadora, montadora, diretora de arte e figurinista. Radicada em Fortaleza, mais adiante deu início a uma série de pesquisas sobre as relações entre arte, tecnologia, gênero, raça, softwares e hardwares livres, ampliando o seu campo de atuação artística para a web art, a modelagem 3D, a realidade virtual, o vídeo e também a performance. 

Durante a residência “deitar no céu para olhar o chão”, coordenada pelo artista Rafael RG e realizada pelo JA.CA entre abril e junho de 2024, Trojany encontrou no isolamento do bairro Jardim Canadá uma oportunidade para retomar investigações em torno dos saberes da astronomia indígena e, além disso, dar início a experiências que levaram ao desenvolvimento de uma escultura imersiva inspirada no formato de um planetário fulldome.

Ao longo desta entrevista, Trojany reflete sobre os próprios caminhos de formação artística, oferecendo, em paralelo, um rico panorama do cenário cultural cearense – destacando iniciativas como o Hub Porto Dragão Cultural e a residência Trair o Cistema. Além disso, compartilha, com humor e sagacidade, algumas das experiências vividas ao longo de dois meses sob o céu de Minas Gerais.    

 

  1. Pensando no JA.CA como um espaço de formação, queria ouvir um pouco sobre a sua formação como artista, seja dentro ou fora da escola. Que momentos e experiências você destacaria? 

Nossa, é tanta coisa que eu já fiz. Eu comecei fazendo arte – falei “sou artista” – mais ou menos em 2010, 2011. Então isso tem 12, quase 13 anos, só que dentro de um processo de muitos aprimoramentos, de muitos questionamentos. No lugar de onde eu venho, você se dizer artista é uma estratégia muito absurda… Pouquíssimas pessoas disseram “Vai!”, todo mundo só fica: “Nossa, o que é isso?”. Eu acho que a arte, pra mim, foi um lugar de acolhimento, onde eu fui vendo que o que eu falava reverberava, tinha sentido – e aí entender isso como profissão, como trabalho também, é um outro processo que, durante esse tempo, foi se aprimorando. 

E esses espaços de formação, principalmente em Fortaleza, foram muito importantes. Eu comecei dentro da universidade de Ciências Sociais, aí desisti desse universo, porque estava muito focado em antropologia visual. Dali eu fui para a Vila das Artes, que na época tinha uma pegada muito próxima do documentário experimental – então foi um lugar onde eu me senti bem.

A Vila das Artes é uma escola de audiovisual da Prefeitura de Fortaleza. Ela existe há mais ou menos 15 anos, e eu fui da terceira turma – isso em um momento muito específico do audiovisual da cidade, em que várias pessoas estavam começando a ter uma projeção internacional. E o universo digital estava ali naquela escola, dentro de um ciclo de possibilidades… Então eu achei que ali fosse um espaço onde eu podia me expressar, porque eu já vinha experimentando com vídeo antes disso… 

Eu era louca por câmera de vídeo, mas naquele momento era algo que ainda estava muito longe da minha realidade. Em 2010, a gente não tinha celular como tem hoje, com câmera de alta resolução… Então o presente que eu queria de aniversário, que eu ficava pedindo pra minha mãe, era uma câmera. Até que uma vez ela me deu uma TekPix, você acredita? Aí essa era a câmera que eu tinha. E eu filmava muito. 

Como eu sabia que a câmera uma hora ia quebrar, eu amarrava no teto, colocava na janela do carro, ficava experimentando os reflexos… Era uma coisa muito não-narrativa, mais pensando na textura da imagem, nas perspectivas… Uma coisa de brincar mesmo com vídeo: eu gravava vídeos muito longos e acelerava… E às vezes eu performava pra essa câmera. Então eu fui caminhando para esse lugar entre antropologia, corpo e audiovisual.

Dentro disso, as formações vinham interagindo: nas Ciências Sociais, eu fazia cadeira de cinema – eu ia como ouvinte, na tora, chegava dentro da sala e ficava lá. Então eu sempre percebi as formações como espaços de captura, mas também como lugares onde eu podia jogar as minhas armadilhas pra ter o que eu queria. Eu não terminei Ciências Sociais, fui fazer o curso de Audiovisual, depois fiz o laboratório do Porto Iracema, parei um tempo, fui pro Design, desisti do curso de Design, e agora eu tô querendo ir pra Arqueologia.

Então, eu vejo esse lugar de formação como uma possibilidade de interagir e de pensar o conhecimento daquilo que me interessa: são lugares onde eu capturo as coisas e percebo as coisas dentro de uma não ingenuidade (de que aquilo vai “mudar a minha vida” ou algo do tipo) – mas eu vejo como espaços muito importantes. 

  1. No contexto de Fortaleza, já há algum tempo você também vem contribuindo para a formação de outras artistas. Para você, qual é a importância de também estar do outro lado?


Muitas vezes eu já ouvi de professores: “não deixe o artista se tornar professor” – e eu acho isso muito grave, pensando em como esses espaços de formação foram essenciais pra mim, vindo de onde eu vinha. Não foram esses espaços que me fizeram ser artista, mas eles realmente me deram um contorno pra isso. 

Hoje eu não consigo desprender as minhas produções da possibilidade de pensar formações: não é que eu fico criando obras pensando em possibilidades formativas, mas, depois que eu encerro ciclos de produção, pensamento e criação, que eu vejo que aquilo chegou num lugar tátil, eu começo a entender se aquilo pode se transformar numa oficina, numa formação. 

Fortaleza, em específico, é um lugar onde foram criadas muitas políticas públicas de formação durante os últimos anos, como uma demanda de uma geração anterior de artistas que pensaram e atuaram nesse sentido, dentro e fora da universidade. E a gente vê que uma comunidade periférica vem entrando nesses espaços, se apropriando deles, se adaptando a essa rotina de uma formação contínua, de dois, três anos, mas que é mais livre em função da cobrança – de como você pode estar ali, do que você entrega. E isso tem mudado a vida de várias pessoas. 

Então, dentro do meu percurso, não tem como eu estar ali sem estar produzindo formações, porque pra mim também é uma forma de trabalhar, de ganhar dinheiro. Não tem como estar no Ceará, num contexto onde o mercado de arte acontece totalmente diferente daqui, e ficar só dentro de um ateliê, produzindo obras e esperando que aquilo escorra. Eu tenho que atuar de outras formas, e a formação tem sido esse espaço.

  1. Como você enxerga as possibilidades de criação e de colaboração dentro desses contextos formativos?

Pra começar, nem tudo é só transmissão de conteúdo. Muitas vezes, nesses espaços, eu elaboro novas pesquisas também, aprimoro pesquisas que começaram com a criação e que eu transformei em uma formação. Às vezes crio obras junto com essa coletividade, mesmo que não sejam obras que eu leve para o meu portfólio, que eu defenda com mais punho como uma coisa minha, mas eu levo aquilo como uma obra, como um experimento de encontro.

E acontecem muitas coisas que são também espaços de se experimentar o que é essa formação em arte. Historicamente, é uma coisa super contraditória e maluca pensar que você entra numa escola, numa universidade, e sai artista. Porque a escola muitas vezes é um contexto cheio de hierarquias, de espaços de dominação, de controle sobre o que é narrativo, sobre o que pode ser pensado. Então, essas outras situações acabam sendo lugares de experimentação sobre o que é formação, sobre o que é conhecimento.

Eu também ajudo muita gente com editais. Às vezes a galera chega… “Me ajuda com esse texto…”, “Olha se esse orçamento está possível”… E eu não consigo dizer não, sabe? Porque eu sei que, às vezes, elas estão se inscrevendo num edital pela primeira vez na vida. Fora isso, uma das formações que eu acho mais maluca de fazer é esse negócio de portfólio, algo que acontece porque um tempo atrás eu fazia muito portfólio para artistas. Então, são muitas as possibilidades, mas geralmente eu dou aula de montagem, de cinema, pensando gênero, sexualidade… 

E eu estou sempre nesses ciclos, entendendo também que é um retorno, que é um percurso que eu já percorri – e eu acho que é importante ter essa devolução, principalmente para as pessoas trans, para as pessoas pretas da cidade, que ficam muito confusas com esse negócio de arte. Porque a arte é um lugar de muita contradição, conflito, insegurança, medo – e ao mesmo tempo um espaço onde as pessoas não gostam de se mostrar vulneráveis. Elas estão sempre prontas a falar, a dizer o que pensam: “meu trabalho é isso”, “eu sou aquilo”, tudo precisa estar muito bem encaixado. 

Tem uma performatividade da segurança – então também tem uma formação que passa por aí: de como você se coloca, de como constrói um cuidado com você, com a situação de estar dentro desse rolê. Eu sempre falo: “Vai, mas não pense que vai ser tudo muito belo, que as pessoas vão ter pena de você porque você é uma travinha – muito pelo contrário, elas vão te sugar. Então, suga também. Fica nesse chup-chup”.

 

  1. Antes desta temporada aqui no JA.CA, você passou por algumas outras residências. Como você percebe essas experiências hoje? O que funcionou bem e o que poderia ter funcionado melhor?

Acho que cada residência tem uma construção muito própria, de acordo com o tempo em que ela é feita… O tempo, o lugar, a expectativa por resultado, o tipo de processo… Em Fortaleza, eu percebo que ainda se está construindo esse lugar do que pode ser uma residência, do que isso pode trazer enquanto política pública, enquanto interesse coletivo ou privado. 

A primeira residência que eu participei foi com Bruna Kury: uma residência que tinha a pós-pornografia como possibilidade. Então, foi uma semana muito prática, intensa, enquanto performance. A gente foi no Mercado São Sebastião, catou todas as comidas que tinham e passou uma semana comendo. Tinha muito do alimento, da sexualidade, da performatividade, do gênero. E foi uma semana explosiva, tudo feito de uma forma totalmente independente, as pessoas se pagando, outro esquema.

Uma outra experiência que eu tive foi no Hub Cultural Porto Dragão, um espaço do Dragão do Mar que tem uma residência anual de três meses. Foi onde, em parte, eu comecei essa pesquisa que eu estou desenvolvendo aqui, agora elaborando com mais intensidade, mas lá foi muito rápido. Tinha uma dimensão prática, mas eu estava me sentindo muito deslocada pela necessidade de permanecer naquele lugar. Então foi uma experiência mais de leitura mesmo, de usar o espaço para ler, para estudar – e de ter uma rotina ali. Eu entreguei, basicamente, uma pasta no Google Drive com muitos textos sobre astronomia indígena, sobre astronomia ancestral e venho lendo esse material até chegar aqui para fundamentar um pouco mais o pensamento. 

Teve uma outra residência que eu participei, dentro do projeto Trair o Cistema. Uma residência organizada por pessoas trans no MIS, do Ceará. Nessa residência eu estive mais como provocadora, como criadora junto com essas pessoas trans. Foram oito, nove pessoas trans de Fortaleza que vivenciaram ali quatro, cinco meses de elaboração e pesquisa sobre o que é transicionar, o que é o estado trans da vida e a tecnologia. Como trair a tecnologia? Como transicionar as tecnologias? Como pensar em tecnologias trans? 

Eu levei como provocação esse lugar do corpo como tecnologia – que parece, às vezes, muito óbvio, mas reencena várias questões. Tinha pessoas lá que trabalhavam com audiovisual há muito tempo e não entendiam, por exemplo, essa relação do olho com a câmera. Coisas que são muito fundamentais nessa relação de biotecnologia, de como as máquinas se inspiram nos corpos e nas corporeidades para poder existirem. 

E aí eu jogo com isso para pensar o que é corpo, o que é máquina, o que é tecnologia, em como a gente hierarquiza isso dentro de um percurso evolutivo e sistemático de dominação dos povos do mundo, mas que, na verdade, tudo tem muita relação e tudo é menos conflitante do que a gente imagina nessa relação natureza, máquina, corpo.

São demarcadores que proliferam essa dominação e que nos afastam de entender essas tecnologias contemporâneas como nossas também, assim como de entender as tecnologias ancestrais como inspiradoras desse marco tecnológico que é reorganizado nessa modernidade. 

Lá, a gente fez fotogrametrias – técnica que tenho usado em alguns trabalhos, que é uma foto 3D – de cada pessoa integrante da residência. Essas pessoas ficam como estátuas, e a gente fez uma constelação com elas – como se elas fossem planetas num grande céu que fica girando nessa sala imersiva. 

Essa residência teve Castiel Vitorino, teve Ela Prazeres, teve Viúva Negra, teve eu – pessoas que foram provocar ideias e coisas surgiram. E é um trabalho muito bonito que essas meninas têm feito lá: Garu, Ayris, Romã, que são pessoas trans que estão dentro do museu e têm conquistado esse espaço e produzido possibilidades. 

  1. Essa é a primeira vez que você participa de uma residência mais longe de casa, em outra região do país. O que te trouxe para o JA.CA e como tem sido essa experiência?

O lugar da residência é muito fundamental, e eu queria ter a oportunidade de experimentar mais. Mas por muito tempo foi difícil para mim me desvincular dos trabalhos com cinema, porque eu trabalho muito com arte, figurino, montagem… e principalmente lá. Então é difícil sair de casa, passar dois meses, um mês, em outro estado, em outro lugar. 

Mas tenho feito esse movimento de focar um pouco mais na minha pesquisa, em mim, e tentar participar mais dos espaços de residência, porque são núcleos de provocação muito intensos. Estar com essas pessoas, estar com vocês aqui conversando, entendendo como as pessoas olham para o que estou fazendo, escutar… Mais do que o exercício da fala ansiosa, eu gosto muito de escutar.

Então, estar aqui também é me deixar provocar e entender as coisas como processos não acabados. Eu não tenho dado nome às coisas aqui, eu não tenho buscado finalizar, entrar numa estratégia lógica… Muito pelo contrário: acho que eu nunca estive experimentando tanto as possibilidades das minhas mãos. 

Nos últimos anos eu fiquei muito nos computadores, muito na internet, muito no vídeo. E quando eu comecei a pensar o documento, a memória do meu próprio trabalho (porque eu acho que a gente tem que se preservar, se documentar, se construir, se guardar mesmo), eu comecei a perceber que tudo que eu tinha era muito frágil. Bastaria um HD ser roubado, o computador pegar fogo, acabaram minhas obras. 

Fiquei pensando que elas não têm uma grande materialidade, um escoamento dentro dos acervos, dentro do mercado, e isso começou a me incomodar – principalmente depois da pandemia, quando eu vivi isso de forma muito intensa, criando performance virtual, ambientes de exposição virtual, web art… Basta nada para que isso tudo suma.

Então, durante a residência, eu comecei a recuperar um pouco as possibilidades das minhas mãos e do que essas mãos são capazes. E acho que, principalmente agora, nesse momento de virada das máquinas, quando elas “pensam” cada vez mais, esse momento da inteligência artificial reconfigura a minha prática artística dentro dos softwares. Eu acho que tem uma virada aí, e eu me recolho para fora da máquina.

Quando essa máquina, com o repertório próprio, te dá uma imagem, isso vai congelando imaginários na cabeça. Então eu comecei a pensar que não quero ver algumas coisas. Eu não quero mediar a minha imaginação com essas ferramentas. Inclusive porque com isso eu fomento a máquina, eu viro uma treinadora delas. Então a gente paga para usar e acaba aprimorando essas ferramentas. 

Então, aqui, eu fui desenhar no chão, eu fui desenhar na terra, eu fui cavar, fui desenhar com fogo, fui costurar, fui girar meu corpo. Tem horas que eu fico aqui só girando. Tem horas que eu vou desenhar ali com fogo. Estou experimentando com pólvora. Então, estou saindo um pouco do computador, da máquina – não como uma saída total, mas como uma forma de reorganizar o poder das minhas mãos e de como eu medio imaginação e obra. 

Porque acho que a grande questão é essa: você pensar um trabalho e dimensionar ele dentro da máquina, dentro do computador, é um tempo X. Mas, pensar “eu quero fazer uma roupa para usar na performance”, o tempo que você gasta nisso – no corte, na linha que bota na agulha… Tudo isso, que era uma prática que estava muito ligada à direção de arte, ao figurino, começou a me interessar de novo. Então estou nesse momento de testar muitas coisas. E aqui, especialmente, onde não tem ninguém no meu pé, me perturbando para eu fazer não sei o quê, eu estou assim: “Me deixa, deixa eu experimentar”. 

  1. Em que sentidos chegar aqui no Jardim Canadá e estar nesse contexto da residência ampliou a sua proposta inicial – de dar continuidade à sua pesquisa sobre astronomia indígena – e ativou outras práticas, para além do que você previa antes? 

Esse interesse pelo céu começa para mim quando eu tinha 16, 17 anos, lá em Icó, e a gente começou a frequentar os arredores da cidade, tentando fugir da conversa das vizinhas, das várias formas de controle que tinha na cidade. Com isso eu acabei virando uma observadora do céu – de uma forma muito profunda. Com o tempo, comecei a pesquisar sobre cosmologia, física, sobre esse vazio que é o olhar para cima.

Mas a partir do momento em que eu fui entendendo o território onde eu estava – uma cidade que surge no contexto colonial, que tem uma resistência indígena muito forte, dos povos Icó, dos povos Kariri, que chegam até ali, fortalecem essa resistência –, eu comecei a entender isso de outra forma. Sempre me incomodou pensar que esse conhecimento sobre o céu estava sendo elaborado dentro de espaços altamente tecnológicos, sem considerar as manifestações ancestrais que fundamentam as idas do homem à Lua.

Isso foi se fomentando dentro de mim como uma possibilidade, mas eu nunca encontrei muito caminho… Até que eu cheguei em Fortaleza, um dos primeiros espaços que eu visitei foi o Planetário do Dragão do Mar, e eu fiquei muito chocada com a possibilidade daquilo enquanto uma experiência audiovisual. No Ceará, existem três planetários bem fortes: tem mais um em Sobral, que foi visitado pelo Einstein, e outro no Centro Cultural Cariri. Pensei: “Dá pra eu produzir um trabalho que circule nesses espaços”.

Sempre ouvi que meus filmes podiam ser instalações, mas eu resisti muito às artes visuais, porque achava um campo obscuro. Mas desde o início eu olhava para os filmes e pensava: “Isso aqui não está querendo ir para o cinema…”. 

Durante a pandemia, eu fui aprimorando essa vontade de não só produzir imagens, mas de estar dentro delas, de ser imagem também. A partir daí eu vou entrando no 3D, na modelagem tridimensional, na performance, na web art, vou encontrando essas matérias e percebendo formas de interação com o espectador em relação à imersão. Vou pensando em vídeos que tenham um formato mais circular – como essas experiências no MIS, que aconteciam em uma sala com quatro telas. E daí veio de novo essa ideia do planetário, que tinha ficado lá atrás.

Quando eu chego aqui no JA.CA, a universidade entra em greve, e cai o acesso que a gente teria ao planetário do IFMG – cai a possibilidade de eu ter um suporte para jogar um vídeo dentro. Aí eu fiquei nessa… Eu crio esse suporte? Eu crio conteúdo para esse suporte? Eu sempre pulei essa parte de pensar um suporte: sempre fui direto para pensar no vídeo, em como ele ia se distorcer e tudo mais… Dessa vez, eu me voltei mais para pensar o suporte. “Se eu quiser criar o meu fulldome, como eu faço?”

 

E aí tem aquela estrutura que está ali fora, feita com material que encontrei aqui no JA.CA – e que aos poucos eu fui entendendo como criar uma circularidade. Depois que eu cheguei naquilo, eu falei: “Eu não preciso colocar imagem aqui dentro. Eu posso entrar ali dentro, ficar ali, olhar para o céu, pensar o corpo entrando naquele espaço, ou usar aquela estrutura para performar…” 

Isso começou a virar um interesse muito maior do que enfiar um vídeo ali dentro e ficar tentando encaixar. Imagina: eu ficaria horas aqui no computador, tendo essa cidade maluca inteira para eu andar. E eu não queria, mais uma vez, ficar dois meses trabalhando no computador. No fim das contas, essa estrutura está se tornando um elemento escultórico, que fui aprimorando – eu já fiz quatro versões. 

E depois que eu falei “Tá pronto!”, eu comecei a ir para outras coisas. Existe uma constelação que se chama Plêiades, mas que também, dentro de uma outra cosmopercepção, às vezes se chama Enxu – ou “enxame de abelhas”. Dentro das constelações indígenas, ela fica na Cabeça do Homem Velho, que é um pedacinho de Órion, na outra cosmologia. 

E essa constelação é muito importante para povos indígenas do Brasil inteiro: sempre quando ela aparece antes do nascer do Sol, é um novo ano indigena. E eu vivi esse momento aqui, tentando acordar cedo para ver se eu via, sentindo a energia desse momento. 

Já a ideia do fogo veio junto com os festejos de junho. Os festejos de Icó têm uma tradição muito grande com pólvora, com fogo, com bombas. Aí eu comecei a experimentar o fogo, a entender a Ana Mendieta como referência disso. Fiquei nisso: nesse desenhar na terra, desenhar com fogo.

Meu último movimento, agora, depois de mais esse experimento, é pensar em performance. Comecei a construir um figurino para essa performance: como um ser que cai do céu e anda pelo Jardim Canadá, querendo seduzir mineradores – para ver se eles param com mineração. Essa figura que cai do céu, marca o chão com fogo e anda pelo território querendo seduzir os homens.

Muitas das ideias que estou realizando agora, de uma forma mais amadurecida, vêm tanto desses outros processos de residência, mas também de ideias que fui anotando e eu não tenho espaço, não tenho máquina de costura, não tenho uma mesa desse tamanho… Meu quarto é do tamanho dessa mesa. E aí essa possibilidade de ter um ateliê, um espaço maior, para que as ideias possam se tornar maiores também. 

 

 


Posts Relacionados

JA.CA – Centro de Arte & Tecnologia

JARDIM CANADÁ – Residências Artísticas | Oficina

Rua Vitória, 886

34000-000 . Nova Lima . MG

+55 31 3097 2322

info@jaca.center

BELO HORIZONTE – Escritório | Endereço Comercial

Rua dos Goitacazes, 103 – Sala 907

30190-050 . Belo Horizonte . MG

+55 31 3504 4565