Em busca da humanidade perdida

Em busca da humanidade perdida


Os artistas Pablo Vieira e Silvio de Camillis Borges, integrantes da associação massa falida (a.m.f.) chegaram ao bairro Jardim Canadá com o intuito de investigar e problematizar a experiência da mineração. “Após 300 anos de mineração, o que sobra quando ela para?”





por Daniel Toledo

Situada a poucos quilômetros do bairro Jardim Canadá, em Nova Lima (MG), a Mina de Morro Velho começou a ser explorada ainda no século XVIII, mas ganhou força, comercialmente, a partir de 1834, com a chegada de uma grande companhia inglesa à região. Fazendo uso de técnicas e tecnologias pouco comuns pelos lados de cá, tais quais a pólvora, a amalgamação por mercúrio e a redução do minério por força hidráulica, a companhia rapidamente tornou-se uma das principais produtoras de ouro em Minas Gerais, mantendo, por um longo período, médias anuais próximas a uma tonelada. Passados, no entanto, quase dois séculos desde aquela conjuntura, o que se tem na região é um cenário bastante diferente. Enquanto o ouro virou passado, figurando apenas nas memórias de antigos moradores, o ferro tornou-se, sabe-se lá por quanto tempo ainda, a grande vedete da mineração local.

Interessados nesse contexto histórico e ao mesmo tempo atual, os artistas Pablo Vieira e Silvio de Camillis Borges, integrantes da associação massa falida (a.m.f.), chegaram ao bairro Jardim Canadá com o intuito de investigar e problematizar a experiência da mineração a partir de entrevistas com antigos moradores da região e também de pesquisas bibliográficas. “Após 300 anos de mineração, o que sobra quando ela para?”, indagava a dupla, que aos poucos encontrou outros caminhos para o trabalho que pretendia realizar.

Se, inicialmente, a proposta envolvia o desenvolvimento de algum tipo de máquina capaz de detectar a presença de ouro no solo ou ainda no lixo eletrônico que vez ou outra se acumula em algumas ruas do bairro, aos poucos Pablo e Silvio voltaram suas atenções ao processo de beneficiamento do minério de ferro. “Já há algum tempo temos nos dedicado a construção de objetos e ao desenvolvimento de técnicas variadas, e nesse caso nos pareceu mais interessante investigar como poderíamos extrair o ferro das próprias pedras que, ao chegarmos por aqui, conseguimos reunir”, contextualiza Silvio.

Em uma espécie de contraponto à grande escala alcançada pela atividade mineradora na região, permanentemente explorada por grandes grupos multinacionais, a dupla optou por resgatar outras formas de beneficiamento do material, recorrendo a tradições que remontam a outros contextos históricos e geográficos. “Ao longo da pesquisa, descobrimos, por exemplo, que na Idade do Ferro o material era encontrado em meteoritos que caíam na terra, associando-o a algum tipo de mistério, o que fazia muito sentido naquele contexto. Com o passar do tempo, no entanto, a humanidade foi superando o mito e desenvolvendo técnicas que lhe conferiram autonomia na produção de ferro e também de outros metais”, compara Pablo.

Ancestralidade. Apropriando-se, então, de técnicas ancestrais que remetem a povos sobretudo vikings e africanos, os artistas decidiram apostar na própria capacidade de transformar a matéria e dar início à construção de um forno artesanal voltado à queima de pedras encontradas na região. “Nesse caminho, vimos que os europeus construíam fornos de pedra, enquanto os africanos investiam no barro como material apropriado a extrair de pedras o ferro que usavam para construir arcos e flechas, entre outros utensílios. Por aqui, tomamos como referência as tradicionais churrasqueiras feitas de tijolos, que mostraram, inclusive, uma durabilidade maior que o barro, já que contêm menos microorganismos em sua constituição”, explica Silvio, ressaltando ainda a dimensão ritual do processo de extração.

“Entre esses povos, muitos consideravam essa capacidade de transformação da matéria como uma espécie de trânsito entre mundos inicialmente tratados como diferentes. Há, portanto, dimensões rituais tanto no próprio processo de queima quanto no formato do forno, que de algum modo conecta a terra ao céu”, completa o artista, que destaca o procedimento de extração do ferro como forma de acelerar um processo geológico que, em condições naturais, levaria muitos anos.

O trabalho da dupla aponta ainda, talvez como uma segunda camada crítica da pesquisa, para a valorização dos rastros humanos que, com o tempo, deixaram de se verificar nos produtos da civilização da qual fazemos parte. “Quando se observa um telefone celular, por exemplo, é impossível perceber as marcas do trabalho humano no produto. Isso, em certo sentido, se relaciona a algum tipo de desumanização dos objetos, assim como à nossa relativa alienação em relação aos processos de produção e aos mecanismos de transformação da matéria”, observa Silvio, interessado em problematizar a lógica industrial que já há alguns séculos rege nossa civilização.

Como forma de compartilhar essa consciência com os moradores e freqüentadores do bairro Jardim Canadá, a dupla incluiu em seus planos a ideia de refazer o forno e o próprio procedimento de queima em um espaço público do bairro, dispondo o instrumento, quem sabe, a diferentes usos pela população local. “Com isso, talvez possamos contribuir para uma maior consciência em relação aos processos de transformação de matéria, o que não deixa de ser um convite para entender melhor o mundo que nos cerca, assim como a nossa própria participação na constituição desse mundo”, finaliza Silvio.


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