Criação em regime de escassez

Criação em regime de escassez





por Daniel Toledo

Concebida e implementada no Brasil no ano de 1938, em meio ao surgimento das primeiras políticas públicas voltadas aos trabalhadores do país, a famigerada cesta básica – ou “ração mínima mensal”, nos termos de seu instituto criador, DIEESE – segue até os dias atuais como uma importante referência para a definição do salário mínimo e, mais amplamente, das “necessidades básicas” de um trabalhador. Como de costume, no entanto, não são os próprios trabalhadores e seus hábitos que definem o conteúdo da cesta, mas, sim, determinações externas, tão relacionadas a ideais abstratos de nutrição quanto a interesses econômicos do poderoso agronegócio nacional.

Com a intenção de vivenciar, problematizar e, quem sabe, reinventar a experiência da cesta básica, o artista Shima chegou ao JA.CA disposto a alimentar-se, durante dois meses, tendo como base os alimentos incluídos na lista, valendo ainda alguma complementação que não ultrapassasse o valor do salário mínimo. Diante de quantidades limitadas de carne de segunda, arroz, feijão, leite, farinha, batata, tomate, pão, café, banana, açúcar, óleo e manteiga, o artista se propôs a superar a noção de uma “alimentação técnica” a partir de uma série de práticas voltadas a potencializar o conteúdo da cesta.

“Uma das questões centrais desse trabalho é trazer certa autonomia para a cozinha, como num contraponto ao que a gente encontra do lado de fora. Enquanto tudo se torna cada vez mais automático na vida, a cozinha me parece ser um espaço no qual a criação, a brincadeira, o jogo e algum tipo de prazer ainda são possíveis”, resume o artista que, acostumado a transitar por diferentes linguagens, já há algum tempo vem incorporando ações relacionadas aos campos da culinária e da gastronomia à sua atividade.

Entre as táticas reunidas ao longo da residência, figuram tanto experiências relacionadas ao aproveitamento de alimentos em sua integralidade, quanto outras, mais relacionadas à experimentação e à incorporação de referências e tradições culinárias certamente pouco familiares a boa parte dos beneficiados pela cesta básica. A partir dessas táticas, os treze ingredientes iniciais se multiplicam em produtos como vinagre de maçã, tomates secos, doce de casca de banana e até mesmo sorvete de feijão – iguaria rara no Brasil, mas, segundo ele, bastante comum na culinária japonesa.

Autonomia. No melhor estilo “faça você mesmo”, o artista propõe, então, a permanente transformação dos alimentos em outros, a partir de procedimentos que, em sua visão, poderiam ser replicados pelos reais usuários da cesta. “É importante lembrar que se uma coisa existe, é porque dá pra fazer. Hoje em dia, quase ninguém sabe fazer pão, mas é muito simples e muito econômico também. Tudo tem a ver com o tempo que se reserva para estar na cozinha, pois quem te vende o pão, na verdade, te vende o próprio tempo”, observa Shima, que garante ter se concentrado em receitas e experimentos cujo tempo de preparo não ultrapassa uma hora.

“A dieta contida na cesta foi pensada para a rotina de um trabalhador, alguém que não tem o dia todo para ficar na cozinha. Mais do que isso, foi pensada para um trabalhador de outra época, que talvez a complementasse com algum tipo de produção própria, vinda, por exemplo, da criação de galinhas ou de hortas que, em outros tempos, muitos tinham em casa”, completa, chamando também atenção à desatualização da cesta em relação aos modos de vida mais comuns às cidades atuais.

Alinhadas a uma lógica vertical, centralizadora e pretensamente universal, a concepção e a aplicação da cesta básica parece, aliás, ter se atualizado muito pouco em relação a valores e tendências contemporâneas como o local e o específico. “São sempre as grandes empresas agrárias que fornecem os produtos da cesta, em vez de pequenos agricultores das proximidades. Além disso, ela se abre muito pouco a ingredientes locais, fechando-se, por exemplo, à possibilidade se substituir a batata por mandioca. Por que, afinal, outros itens não são considerados? Por que a opção por não diversificar e trazer outras opções dentro dos mesmos valores?”, questiona.

Como forma de compartilhar tanto as reflexões quanto as receitas acumuladas ao longo do período de residência artística, Shima prevê a elaboração de uma publicação que possa ser reproduzida de forma simples e, quem sabe, contribuir para seus esforços de renovação e reinvenção da cesta básica reverberem também em outras cozinhas e quintais. E diante de um contexto político e econômico no qual a cesta básica corre o risco de tornar-se, para muitos, uma realidade difícil de se ultrapassar, o artista prevê ainda a realização de uma celebração que intitula “Festa para o Agora”. Com quitutes igualmente preparados a partir dos treze ingredientes da cesta, Shima entende a festa como uma espécie de síntese da experiência a que se propôs: transformar o ordinário em extraordinário. “Independente do que aconteça, vou estar em festa”, garante.


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