A morte que nos ronda e habita LUISA NOBREGA

A morte que nos ronda e habita LUISA NOBREGA


A artista Luísa Nóbrega, residente do primeiro ciclo de Residências Internacionais 2016, realizou, ao longo de dois meses, uma intensa pesquisa em torno de diferentes perspectivas, discursos, experiências, memórias e imagens relacionadas à morte.





por Daniel Toledo

Tratada por muita gente como assunto delicado, falamos, geralmente, muito pouco sobre a morte. Mas ela existe, é incontestável e se inscreve o tempo todo sobre nós e o mundo que habitamos. Associada, pelo menos na cultura ocidental, tanto ao mistério quanto à certeza, a morte é inegavelmente uma questão comum a todos nós. Ainda que seja uma questão comum, como experiência, a morte é vivida sempre individualmente por cada pessoa, a partir de acontecimentos, condições e perspectivas sempre singulares, claramente condicionadas pelo contexto social e material que envolve cada um de nós.
Enquanto viveu no bairro Jardim Canadá, a artista Luísa Nóbrega realizou, ao longo de dois meses, uma intensa pesquisa em torno de diferentes perspectivas, discursos, experiências, memórias e imagens relacionadas à morte. Como num esforço de mapeamento e inventário, a artista recolheu, através de observações e entrevistas, impressões deixadas pela morte em diferentes espaços na região ou ainda em alguns de seus habitantes. Como resultado desse exercício, Luísa encontrou e se articulou a um complexo sistema que desde o início mostrou transbordar as fronteiras do bairro.
“A morte é um assunto que diz respeito a todo mundo, mas ao mesmo tempo é uma conversa que nunca se conclui. Mas, além dessa dimensão filosófica, também fui atrás da sua dimensões práticas, materiais, fenomenológicas e jurídicas, sempre cuidando pra tratar da experiência como um todo, sem dividir ou compartimentar essas perspectivas”, pondera a artista, chamando atenção à evidente impossibilidade de categorização ou mesmo esgotamento do tema. “É muito interessante perceber que tudo o que sabemos sobre a morte se refere à morte dos outros. Mas será que o que sabemos e falamos serve de alguma coisa quanto cada um de nós está diante da morte?”, problematiza.
Circuito. No que toca às dimensões concretas da experiência da morte no bairro Jardim Canadá, um aspecto que logo chamou a atenção da pesquisa foi a ideia de deslocamento, recorrente à dinâmica da morte em uma região na qual certo “circuito” geralmente associado ao momento da morte se mostra impossível de completar. “O bairro conta apenas com um Pronto Socorro que funciona até as 19h. Para encontrar hospital ou cemitério, tem que ir à Nova Lima”, conta a artista.
Ao longo da residência, ela visitou tais espaços em busca de pessoas que convivessem de perto com a morte. “É interessante entender, nesse sentido, o hospital como uma estratégia de prolongamento da vida, uma espécie de meio-termo entre vida e morte, entre manter vivo e preparar para a morte”, reflete Luísa, a partir de conversas estabelecidas com médicos legistas e pacientes em estado grave de saúde.
Também escutou histórias de outras mortes, relacionada a casos de exploração e violência. Histórias de corpos marcados pela precariedade das condições de trabalho na mineração que há décadas atua intensivamente na região. “Ouvi, por exemplo, que havia muitas mortes nos anos 1970 e também que, quando o funcionário de uma mineradora morre em serviço, o corpo é entregue para a família. Isso é um direito mínimo, mas que era negado à família do escravo, em outros tempos”, compara a artista, fazendo menções a relatos sobre corpos vez ou outra encontrados no Parque do Rola Moça e também ao crime de Mariana, bastante contemporâneo à pesquisa. “É curioso pensar no valor que se dá à vida, nessas relações temporárias de vínculo, e como tudo isso se relaciona à certa dimensão social da morte”.”
Parte desses encontros, a artista compartilha a partir de uma pequena publicação com textos e imagens produzidos ao longo da residência. Também compartilha uma série de depoimentos em vídeo, nos quais ganham voz quatro coveiros que atuam na região. “Cada um deles traz uma perspectiva diferente sobre a morte, uma visão muito particular sobre a própria rotina. Enquanto um queria ser policial, o outro trabalhava na mineração. E há também um que brincava no cemitério quando era criança”.


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