RESIDÊNCIA JACA 2024
Na residência Deitar no céu para olhar o chão, realizada pelo JA.CA, a artista Rose Afefé integrou o programa como convidada a partir do Prêmio FOCO ArtRio 2023, desenvolvendo um conjunto de ações que atravessam prática artística, experiência territorial e processos de troca com o contexto local. Sua participação não se deu apenas como produção de obra, mas como ativação contínua entre arte e vida, articulando memória, construção e modos de habitar.
Nascida em Varzedo, no interior da Bahia, Rose traz em sua trajetória uma relação profunda com a manualidade e os fazeres cotidianos, elementos que atravessam sua prática desde a infância. Ao longo da residência, essa dimensão se atualiza no contato direto com o território do Jardim Canadá, onde a artista inicia uma investigação a partir da materialidade da terra — especialmente a terra vermelha da região — como elemento estruturante de sua pesquisa.
Inicialmente interessada em desenvolver uma nova microcidade pictórica, desdobramento de sua obra Terra Afefé (2018–), Rose encontra no território um campo expandido de experimentação. A partir da observação das paisagens, das construções e dos modos de vida locais, a artista passa a elaborar uma nova proposta de cidade, incorporando elementos do cotidiano do bairro, como fachadas, objetos e estruturas vernaculares. Surge, assim, a ideia de uma cidade atravessada pela terra vermelha — não apenas como cor, mas como índice material e simbólico que contamina corpos, superfícies e imaginários.
Durante esse processo, a artista desenvolve trabalhos que transitam entre pintura, objeto e instalação, criando situações em que o espaço expositivo se aproxima da ideia de ambiente. Pequenas construções, relevos, superfícies pigmentadas e elementos arquitetônicos passam a compor uma paisagem híbrida, onde pintura e espaço se confundem. Essa abordagem amplia a noção de obra, deslocando-a de um objeto isolado para uma experiência que envolve o corpo e a percepção do público.
Paralelamente à produção artística, Rose também ativa a residência como espaço de troca e formação. Entre as ações realizadas, destaca-se a condução de uma oficina com crianças do território, na qual a artista compartilha técnicas de construção com terra, propondo a criação de pequenos adobes — os chamados “adobinhos”. A atividade se configura como um momento de experimentação coletiva, no qual questões como memória, materialidade e construção são abordadas de forma sensível e acessível.
Essa dimensão educativa não se estabelece como um eixo separado da prática artística, mas como parte constitutiva de seu trabalho. Ao compartilhar saberes e experiências, Rose tensiona as fronteiras entre arte, pedagogia e vida cotidiana, propondo outras formas de relação com o fazer e com o conhecimento. Sua abordagem valoriza o aprendizado a partir da experiência direta, da observação e do contato com a matéria, deslocando a ideia de formação para além de estruturas formais.
Ao longo de sua estadia, a artista também se envolve em conversas, caminhadas e trocas com outros participantes da residência, incorporando essas experiências ao seu processo. A relação entre céu e chão — eixo conceitual do programa — aparece em sua pesquisa como um campo de tensão entre projeção e construção, entre o imaginário e a materialidade, entre o desejo de cidade e a experiência concreta do território.
A participação de Rose Afefé na residência evidencia uma prática que se constrói a partir da interseção entre memória, território e coletividade. Ao ativar o espaço como lugar de experimentação e convivência, sua presença contribui para expandir as possibilidades do programa, propondo modos de fazer em que arte e vida se constituem de forma inseparável.
















