Cidades de terra e memória
por Daniel Toledo
Conversa realizada em 17 de junho de 2024
Tendo hoje pouco mais de 8 mil habitantes, a cidade de Varzedo, no interior da Bahia, foi emancipada somente em 1989 – quando a artista Rose Afefé tinha um ano de idade. Nascida em um vilarejo, em meio a uma família repleta de ofícios e fazeres, Rose foi conhecer outras paisagens somente na adolescência, quando passou a estudar em Santo Antônio de Jesus. De lá saiu para Salvador, depois viveu em São Paulo e atualmente vive entre o Rio de Janeiro e a micro cidade de Afefé – construída com as próprias mãos, sob a inspiração de suas memórias de infância.
Rose Afefé chegou à residência “deitar no céu para olhar o chão”, coordenada pelo artista Rafael RG e realizada pelo JA.CA entre abril e junho de 2024, como parte do Prêmio Foco 2023, concedido pela Art Rio. Entre seus planos iniciais, figurava a construção de mais uma micro cidade pictórica, dessa vez no bairro Jardim Canadá. Ao chegar na região, se surpreendeu com a cor – vermelha – da terra.
Ao longo desta entrevista, Rose compartilha um trajeto de formação no qual vida e arte comumente se misturam, destacando diferentes momentos de uma trajetória cheia de reviravoltas. A artista ainda oferece um rico relato sobre a criação e a manutenção da micro cidade de Afefé, entendida, em sua obra, como um contraponto ao hiperprocessamento da vida nos grandes centros urbanos.
- Para começar essa conversa, queria ouvir um pouco sobre a sua formação como artista, entendendo essa formação como um processo que pode começar na infância e se desdobrar ao longo da vida, a partir de experiências como essa residência. Que estímulos foram importantes para a construção do seu pensamento e da sua prática artística?
Eu acho que minha formação veio muito do primeiro lugar que eu habitei, que é a minha cidade natal, Varzedo. E daí dessa família, dessas pessoas que estavam em volta, porque eram pessoas muito ligadas a ofícios.
Na minha família tinha costureira, meu tio fazia silk, meu pai era caminhoneiro – mas também trabalhava em açougue. Minha mãe cozinhava muito bem – ainda cozinha, inclusive. Então as pessoas sempre estavam manejando alguma coisa, tinha muita coisa de manualidade, sabe? E aí eu cresci muito aguçada nessas manualidades. Nesse fazer. Meu tio era marceneiro, eu aprendi marcenaria muito pequena: pregava coisas, fazia banquinho…
E sempre tive essa coisa de saber desenhar, saber pintar. E aí meio que virei a artista da família. Todo mundo me chamava: “Ah, você é artista!”. E jornalista, porque eu acho que acho que eu também falava muito. Eu era muito curiosa. Tinha apelidos… Mas eu não tinha muita ideia do que era ser artista – comparando com o que eu faço hoje. Ser artista era mais estar ligada à criatividade – ser uma pessoa criativa – do que qualquer outra coisa. Isso era o que me vinha primeiro.
E aí, quando eu fui estudar em uma escola particular, já adolescente – foi meio que um presente de 15 anos que eu ganhei. Minha mãe falou assim: “Você quer fazer inglês ou estudar em um colégio particular? Aí eu falei: “Quero um colégio particular”. A gente conseguiu meia bolsa, e aí eu fui estudar em Santo Antônio de Jesus. E nesse contato mais urbano, porque Varzedo era uma cidade bem rural, eu comecei a ter contato com esse universo de conversas sobre vestibular, faculdade…
E ali começou a abrir esse campo da universidade para mim (até então na minha família não tinha ninguém formado), eu comecei a me interessar: “Quero ir para a faculdade e vou fazer duas…”. Pensei em algumas possibilidades: Publicidade e Propaganda, Jornalismo, Comunicação Social ou Artes – porque eram coisas que eu tinha ali, indicadas por outras pessoas, que eu poderia fazer. Mas eu não sabia o que era Publicidade. Jornalismo eu sabia que era alguém que estava na televisão – e só.
E Artes, eu tinha uma referência de um artista que é de Varzedo: a Ieda Oliveira, que foi para Salvador estudar Artes e virou uma artista bem conhecida. As pessoas se referiam à Ieda como se fosse alguém diferente, que se vestia com roupas coloridas… Então, eu não tinha noção de que pessoa eu poderia virar, se eu virasse artista… Tinha uma contradição aí também. O fato é que depois eu fui para Salvador, passei em Artes e em Publicidade, e estudei em paralelo as duas coisas.
- Quais foram os passos seguintes para expandir essa primeira visão sobre o campo das artes – e o que poderia vir a ser essa prática?
Quando tive a minha primeira aula da faculdade de Artes – acho que era História da Arte Contemporânea, logo no primeiro semestre – eu me deparei com o que poderia ser arte, no sentido do que eu trabalho hoje. E achei muito curioso como me instigou a pensar em arte nesse deslocamento de materiais, de processos… do que pode ser arte. Eu vi um trabalho do Leonilson que era uma cortininha sobre um espelho, Hélio Oiticica, Lygia Clark… E comecei a falar: “Caraca, é tão mais legal isso do que só pintar”.
E aí eu comecei a pensar em ser um artista conceitual, ao mesmo tempo eu estava fazendo uma formação de Comunicação Social – e eu tinha acesso a textos e pensamentos que estavam mais ligados a questões sociais, Sociologia, Antropologia. Aí essas coisas começaram a fundir: eu comecei a me interessar tanto por um campo mais das humanas e desses textos, quanto também pelo campo desse pensamento mais conceitual de arte – e juntando as duas coisas.
Passei uns cinco anos nessa produção e depois interrompi quando eu fui para São Paulo – eu não consegui muito desdobrar meu trabalho em São Paulo. Eu fiquei muito tempo trabalhando em publicidade, e com uns 28 anos fiz esse trajeto de começar a querer sair de São Paulo e voltar a morar no campo – porque não estavam mais fazendo sentido para mim as experiências que eu tinha em São Paulo. Eu já estava me sentindo formatada.
Aí eu vou estudar Bioarquitetura, construção com terra, deixo emprego, deixo tudo, e vou morar numa zona rural lá do Rio, em Bom Jardim. Ali eu começo de novo a pensar em arte.
- Qual foi a importância desse retorno a um contexto rural para o pensamento e a prática artística que você desenvolve atualmente?
Eu conto essa história toda porque parece que nesse momento eu me conectei ao que de fato fazia sentido para mim na arte: pensar arte e vida – e isso estar totalmente em simbiose. Porque, quando eu comecei a formatar o que seria a arte distante dessa vida que eu tinha, eu comecei a me perder um pouco no interesse do que eu queria falar: do que era a minha pulsão de vida.
Varzedo me instigava muito nesse sentido de ver as pessoas trabalhando com manualidades e aquilo não ter um nome ou ser uma profissão, mas também ser, para uma criança, um lugar fluido de brincar e de construir coisas – de ser trabalho e não. Eu acho que a minha pulsão é realmente associar essas memórias e esses desejos – e o que eu gosto e o que eu consigo elaborar a partir da troca com as pessoas – e criar com isso. Mas isso precisa em algum lugar estar dentro, talvez, de uma memória da minha infância.
Acho que preciso recorrer em muitos momentos a essas lembranças e a esse afeto para dar conta dessa coisa fazer sentido para mim. Quase como o fato de ter vivido nessa área mais rural e ter convivido com uma outra lógica de vida, de consumo, de existência… deslocar isso para São Paulo foi um rompimento muito grande. Ao mesmo tempo que eu achei incrível o tanto de liberdade e de possibilidades que eu encontrei em São Paulo, ali eu tive que perceber uma outra forma de cidade, de habitação, de pessoas, de como as pessoas se comportavam nesse lugar… e as referências que eu tinha não cruzaram.
Então, acho que sempre que eu vou pensar na minha formação, eu penso e recorro a coisas que eram muito importantes para mim na infância, sabe? Para tentar articular essa infância com os processos do presente e tentar pensar futuros também.
- Depois desses estudos em Bioarquitetura e do retorno a um contexto rural, qual foi o caminho para a criação de Afefé, em 2018?
Quando Afefé apareceu para mim, foi num jogo de búzios… Mas não era Afefé, era o desejo de comprar uma terra no interior da Bahia – em qualquer interior que fosse. Aí alguém me falou que eu ia gostar muito de Ibicoara, eu guardei essa informação e comecei a escrever Ibicoara na parede da minha casa – porque eu gosto de visualizar essas coisas entre papel e realidade. Eu desenhei também como eu queria esse lugar: muito mais uma casa para mim, um rio, uma coisa assim…
E aí, depois de um tempo, eu fui para Ibicoara e consegui comprar esse terreno. Eu não tinha grana – isso eu acho importante falar, porque eu tento trabalhar com situações em que o acesso às vezes pode não estar dado e você cria esse acesso. Como é que a gente também articula experiências e vida dentro de um lugar inventivo? Tipo: eu não tinha como fazer aquilo, mas eu descobri um jeito. E nem sempre é um jeito que as pessoas olham como ideal: eu me endividei, eu articulei contatos complicados, peguei um empréstimo, não consegui pagar, virou um processo…
Isso tudo poderia me dar muita angústia e interromper o processo, só que eu sempre sou muito incentivada e também carrego isso de pensar em arte e vida – de pensar que todas essas coisas que a gente fala “vai dar errado” são também partes de uma construção de autoria de vida, do que eu posso fazer.
Tem caminho aqui? Dá pra eu ir? Se a gente tem uma moral e ética que está para o cuidado, para o afeto, para a atenção, eu acho que essas coisas podem ser articuladas, sim. E aí, dentro disso, o que eu mais tensionei foi uma questão de classe. E acho que foi importante ter acumulado experiências negativas nesse início da construção da Afefé, porque isso me deu um exato ponto de saber porque o trabalho era tão importante de ser produzido, sabe? E também o que ele pode articular nas pessoas.
Porque se fala muito hoje de viver no campo – e como é bonitinho isso. E eu estava experienciando o oposto de tudo isso, mas criando um espaço que é para contaminar as pessoas, para incentivar as pessoas a acessarem esse lugar do enfrentamento, do risco, da coragem.
- Hoje em dia Afefé se apresenta como uma obra e um espaço a ser habitado, com convocatórias para residências e outros visitantes transitórios. Como você tem vivido essa experiência de receber visitantes e abrir o espaço para outras iniciativas dentro e fora do campo das artes?
Ativar Afefé é a gente viver um pouco de uma ideia de roça, de ter contato com a natureza, com situações da comunidade local – e de criar no corpo uma referência sobre esse território. E tem uma complexidade no porquê habitar Afefe, no porquê fazer esse espaço, no porquê provocar as pessoas a irem para lá – e não oferecer algum tipo de serviço, algum tipo de garantia do que vai acontecer…. Em muitas vezes ser uma ativação de obra, às vezes ser uma residência – mas que está numa zona rural, que tem bichos, o tempo… Não é um corpo protegido: é um corpo que está exposto a esse tempo e essa ecologia.
E aí, nessas experiências que eu produzi em Afefé, eu vi que gostava também dessa conversa com as pessoas: de estipular esses pensamentos sobre arte e vida, de pensar em produções artísticas que não tenham a finalidade de ser arte e podem ser qualquer outra coisa – ou ser qualquer outra coisa e também virar arte. Então, não é um lugar que só recebe artista visual: pessoas da dança, pessoas da música… Recebe todo mundo que quer ir para lá. E dentro disso, se a gente puder produzir arte, massa, se não, vamos para uma cachoeira, fazer comida, beber num bar…
E aí, quando eu tenho pensado nessa formalidade do que eu faço hoje (em formalizar o trabalho), eu tenho pensado em como eu consigo articular minha produção artística nesse campo estético, conceitual, e a minha produção nesse pensamento do educativo, do social – inclusive em como eu movimento a própria grana do meu trabalho para isso gerar renda para outras pessoas.
E não é sobre assistencialismo: é mais pensar no quanto de ajuda eu já tive, em quantas coisas se facilitaram porque apareceu uma grana ali, porque algum momento eu consegui um respiro de poder ser artista… Porque, se você não tem qualquer amparo de família ou grana, ser artista é meio complicado.
- Como tem sido o encontro com a residência “deitar no céu para olhar o chão” e o bairro Jardim Canadá?
Nessa questão de se relacionar com as estrelas, tem um lugar oracular que me interessa: entender essas possibilidades de observar o espaço, de observar as estrelas dentro de um pensamento mais das incertezas – ou de uma comunicação que a gente não dá conta – porque, apesar de todas as informações, a gente nunca tem todas.
E aí, dentro de imaginar ou configurar algo em torno dessas estrelas ou desse plano mais celeste, ao mesmo tempo, trazer para essa coisa do chão, da terra – isso se conecta em algum lugar. Como, no meu trabalho, está muito presente essa questão da cidade, da micro cidade, da construção dessas cidades imaginárias ou até de pensar essas sociabilidades dentro de um espaço que é outro (que eu chamo de micro cidade), eu comecei a elaborar qual outra cidade eu poderia construir.
Pensando no tamanho do projeto, talvez eu tenha o ímpeto de querer projetar esses trabalhos em escalas grandes. Projetar situações em que sejam grandes instalações, ou espaços, ambientes mesmo. De conseguir fundir espaço e obra, e isso ativar um lugar mais amplo da interação entre o público e o trabalho.
- Que estímulos mais específicos têm sido importantes dentro da sua pesquisa aqui no bairro?
Muitas vezes eu sou instigada a fazer algo porque aquilo se conecta com alguma coisa que eu sinto e que me motiva, me movimenta. E disso eu abro um escopo do que pode ser. Antes de vir para Minas, eu encontrei umas plaquinhas no Rio, de números de casas. Eu achei essas plaquinhas e falei que eu ia fazer uma sequência de casas – da sequência de casas, pensei em fazer talvez uma outra cidade pictórica.
Então eu venho observando memórias e observando também a paisagem, num bairro que, pra mim, é meio cidade, também – porque eu acho que isso aqui é facilmente do tamanho da cidade onde eu nasci. Quando eu nasci, minha cidade não era cidade – era um povoado. Varzedo tem 35 anos, eu tenho 36: eu fazia 10 anos, e a cidade estava fazendo 9… Eu ficava: “Gente, o que é uma cidade?”.
E aí apareceu a terra daqui, que é essa terra vermelha. Como eu trabalho com construção e terra, eu falei: “Vamos tentar construir com terra aqui também, fazer os adobes”. E aí, no manuseio, eu vi que minha mão ficava vermelha, meu pé, vermelho, e comecei a pensar numa cidade – e colocar o nome, talvez, Terra Vermelha. Até que a Chica, conversando comigo, falou que aqui – antes de chegar o asfalto – todo mundo era reconhecido por pé vermelho. “Ah, é fulano do pé vermelho!”. Aí talvez então eu chame a cidade de Terra do Pé Vermelho.
Eu fui pisar no barro aqui, meu pé está vermelho até hoje, e eu fiquei vários dias com a unha vermelha… A gente vai desconstruindo esse lugar da limpeza, do que é ser limpo: são referências que vêm desse lugar da natureza. E como uma cidade que está dentro de um lugar de terra vermelha, se ela não é toda asfaltada, ela tem essa referência da terra vermelha. E isso de alguma forma vira uma estética do lugar e das pessoas.
Pensando em pintura, isso pra mim é ótimo: eu trabalho com essas cores, eu preciso dessas materialidades para traduzir o meu trabalho. Porque aí eu trago esse índice da terra nas paredes – ou trabalho com essas poeiras na pintura. Ou então eu coloco essa pintura no tempo, e a terra contamina essa pintura (contamina no bom sentido). Em paralelo a isso, eu posso também fazer outras coisas, mas me veio a ideia construir essa cidade da Terra do Pé Vermelho aqui.
Eu comecei a desenhar a sequência de paredes desse lugar. São fachadas de casa, tem os números… E aí tem as referências que eu vejo: uma escadinha na frente da pintura, um carro de compras, uma mesinha de bar… Então, eu faço objetos e pintura: essa pintura meio instalação, pintura-objeto, sei lá que nome daria…
A ideia é essa pintura também ser o espaço, e esse espaço também ser a pintura – dentro de uma ordem mais abstrata, porque eu acho que o trabalho fica mais próximo desse lugar de utopias possíveis, de imaginários que não precisam ser categóricos, sistematizados. De ser um espaço de fuga também – que você olha, percebe e ao mesmo tempo vira outra coisa.
- Além dessa pesquisa, você também está se preparando para uma oficina com crianças que estudam no bairro. O que é importante para você dentro de processos formativos como esse?
Pra começar, me interessa muito pensar em trabalhos que articulem situações sociopolíticas, educativas, que o trabalho sempre tenha esse espaço. Eu adoro estar na exposição e conseguir conversar com as pessoas, porque eu acabo trazendo a experiência do trabalho. Então propor algo, aqui, tem essa finalidade de trocar experiências. Eu gosto muito de pensar nessas narrativas dos trabalhos: que eu produzo situações na minha vida, e essas produções viram histórias que viram trabalhos – e aí contar essas histórias também faz parte do trabalho. Esses encontros com público servem para alinhar uma outra parte do trabalho, que é essa oralidade, que é falar dessas experiências.
Nessa oficina, eu vou trazer essa possibilidade de fazer esses micro adobes, esses “adobinhos”. E estou estudando como é essa terra, como é relação das pessoas com essa terra… Porque a minha relação com casa de terra é da minha infância, é de uma memória que eu tinha vergonha.
Inclusive, eu fiz agora a exposição “A vergonha quase me tirou a memória”, que foi voltar à Rose de 10 anos, que estava ali desenhando casinhas. Que morava em uma casa de adobe pintada de cal – e que queria uma casa branca, com paredes brancas, piso de cerâmica (meu era piso de cera)… Eu acessei esse lugar e pensei: “Quais eram as coisas que me interessavam nessa casa, no sentido estético?”. Coisas que naquela época eu não gostava, mas que hoje eu poderia ver isso enquanto beleza – porque eu acho que eu aprendi a não gostar dessa casa. E eu sinto que a gente também aprendeu a não gostar da terra, sabe? Que a gente acha que a terra é suja, é atraso, é poeira… Ter essa sensação para algo que produz a nossa vida no planeta – que produz alimento, a gente anda sobre a terra – é quase um duplo vínculo. Você ama e odeia.
Então me interessa tentar entender como as pessoas daqui se relacionam com essa terra – e tentar enxergar essa terra enquanto material construtivo. Porque eu acho que a casa tem muita importância dentro da nossa sociedade: a casa própria, o teto, a segurança – pensando nessa sociedade que está em torno da urbanidade, ou nos lugares mais rurais onde eu vivi, porque tem outros povos. Entender como a gente se relaciona com essa terra, pensando desde os períodos de coletores, em que a gente se articulava dentro de ecossistemas mais próximos.
Gosto muito de trabalhar com crianças – e até com adultos também – a ideia de que passarinho faz um ninho que ele precisa. Não tem um passarinho surtado que vai fazer um ninho de quatro andares, se ele não precisa de um ninho de quatro andares. Então por que a gente perdeu essa relação de qual seria a casa ideal? De qual seria a casa mais próxima desse ecossistema? Ou também também qual é essa casa afetiva – que é onde o meu trabalho mais está. Eu não escolhi construir com terra porque era sustentável ou algo do tipo, mas porque estava vinculado à minha memória. Mas eu sei também da importância de a gente perceber que muitas coisas que as pessoas falavam que era atraso, que era sem tecnologia, hoje fazem mais sentido. Porque a gente foi para um hiperprocessamento do mundo – tipo um alimento hiper processado.
E é como se a gente tivesse tornado esse planeta um lugar hiper processado. E aí, quando a gente não reconhece, a gente não cria proximidade, e tudo bem virar tudo entulho, virar tudo lixo. Eu não tô levantando bandeira sobre ecologia, sobre meio ambiente, mas eu consigo olhar para a minha história e ver que muitos hábitos eram mais bacanas e me faziam produzir uma vida mais interessante.
Quando a gente começou a falar de formação, eu recorri a toda uma história, porque me interessa trazer, dentro desse contexto de trabalho, um lugar em que a formação seja também viver. E entender a vida como formação, entender o cotidiano – e não só abrir um livro. O quanto a gente consegue aprender com a vida hoje? O quanto esses espaços que estão mais próximos da natureza, que não tem essa urbanidade, essa sistematização de tudo, te fazem criar experiências a cada minuto? Tem um lugar de vida, eu acho, que vem dessa experiência com a própria vida. E, pra mim, o jeito de morar nos grandes centros tem muito pouco de vida, de produção de vida.
Ter aprendido a construir uma casa na minha vida adulta, já com 28 anos… É algo que se eu tivesse aprendido quando era criança, eu talvez estivesse construindo casas hoje: eu seria pedreira. E isso te dá uma autonomia. Dá a sensação de que eu consigo chegar, fazer um teto e me proteger, vou conseguir me aquecer, permanecer nesse espaço… Trazer essa experiência para essas crianças e para esses adultos sinaliza uma possibilidade de ultrapassar o que é possível a gente fazer com as mãos. Algo que ainda está muito ligado à figura de um masculino: o pedreiro. Mas tem muitas mulheres, muitas pessoas, hoje, para além de gênero, que constroem, que pensam em construção – e eu acho isso fantástico porque você cria a possibilidade de essas construções terem outros imaginários, outras referências.

















