O cão e a cidade – SARA LANA

O cão e a cidade – SARA LANA





por Daniel Toledo

Bastante naturalizada em nossos dias, a convivência amistosa entre seres humanos e cães tem origens históricas geralmente associadas a 20 ou 30 mil anos atrás, quando ainda éramos predominantemente nômades e caçadores. O surgimento das primeiras cidades, por outro lado, geralmente se situa, historicamente, há pouco mais 5 mil anos. Daí se poderia deduzir, quem sabe, que nunca houve uma cidade sem cão.

Interessada em investigar a inserção dos animais no ambiente urbano, a artista Sara Lana converteu sua residência no JA.CA em uma experiência de convivência e intensa escuta junto aos numerosos vira-latas que habitam as ruas do bairro Jardim Canadá, em Nova Lima. Ao longo de um mês, a artista acompanhou diariamente a rotina dos cães, tendo justamente a escuta como principal instrumento de percepção.

Para tanto, Sara recorreu a uma ampla gama de tecnologias, passando por rádios, walkie-talkies e, finalmente, a partir da colaboração do artista Felix Blume, passou a fazer captação estéreo utilizando microfones binaurais. “Para conseguir acoplar rádio transmissores a coleiras, tive que projetar sistemas muito compactos e consequentemente menos potentes. Para a recepção sonora, isso teve um impacto, pois os áudios transmitidos pelos cães não chegavam límpidos, mas com um certo nível de ruído. Por se tratar de uma escuta radiofônica, em que o território e a relação espacial entre transmissor e receptor estão intrínsecas ao áudio, os sons captados perdem o seu sentido quando não vivenciados em tempo real. Por isso me pareceu interessante que os registros sonoros finais fossem feitos sem a intermediação do sistema de rádio transmissão”, observa Sara, deixando ver os limites do alcance da vigilância imposta aos cães.

Ao instalar microfone binaurais nas orelhas de cinco cães do bairro, no entanto, a artista deixou em segundo plano a transmissão em tempo real e passou a relacionar-se com qualidades específicas à escuta humana e também dos cães, caracterizadas pela escuta a partir de dois receptores sonoros. Tendo como base pesquisas realizadas por sonólogos como Schaeffer, Reyner e Palombini. Palombini destrincha bem a pesquisa de Schaeffer, que define o que são os objetos sonoros e desenvolve uma teoria sobre a escuta separando-a em ouvir, escutar, entender e compreender. Ouvimos se não somos surdos, escutamos o que nos interessa escutar, entendemos o que interpretamos da escuta de um dado objeto sonoro e compreendemos algo que não está informado diretamente por ele. São as nuances e subjetividades do entender que me instigam nesse trabalho”, contextualiza.

Relações de vizinhança. “No início, todo mundo dizia que eu nunca ia conseguir me aproximar dos cães. Com o tempo, no entanto, percebi que podia me aproximar até mesmo os mais bravos: era só deitar no chão e esperar que eles viessem me cheirar. Aos poucos, larguei mão do medo e entendi que trabalharia com os cães que me escolhessem”, conta Sara, sobre os primeiros momentos da pesquisa.

Além de certa resistência por parte dos próprios cães, a artista enfrentou ainda a desconfiança de boa parte da vizinhança em relação ao trânsito contínuo de gravadores, antenas e fios pelas ruas do bairro. “De fato, após instalar os microfones nos cachorros, percebi um incômodo generalizado da vizinhos, claramente motivado pela impressão de vigilância. Se, no início, com os rádios, algumas pessoas pensavam que eu estava colocando música para os cães, mais tarde, com os microfones, já se tinha a impressão de que os cachorros serviriam como pontos de escuta”, compara a artista.

A primeira intenção, conta, era transmitir os áudios em tempo real, via rádio, considerando dez cães paralelamente. Mais adiante, com a adoção de captação estéreo, a artista construiu cinco faixas sonoras compostas a partir de percursos adotados por diferentes cães de rua do bairro. “Além de trazerem os percursos, os áudios revelam as formas como eles se organizam em matilha, captando o som de forma naturalmente espacializada”, observa.

Entre silêncios e sonoridades urbanas, atravessados por ameaças de todo tipo e também iniciativas de apaziguamento, os áudios acabam oferecendo ao ouvinte uma camada paralela de experiência da cidade. “Tentei extrair apenas pelo áudio informações que realmente me revelassem questões sobre o meio urbano e o modo como os cães se relacionam com elementos da cidade tais quais o esgoto, o lixo e o comércio. Houve quem sugerisse a instalação de GPS nos cães, mas logo entendi que muitas informações poderiam, de fato, ser compreendidas somente a partir do áudio”.

Parte da matilha. Entre as questões que ganharam força ao longo da escuta, Sara destaca sobretudo a relação entre os cães e o território do bairro. Inicialmente, a artista projetava um sistema que fosse capaz de cobrir entre 2 e 3 km. Mais adiante, descobriu que circuitos percorridos por cada cão não passavam de 1 km, evidenciando suas fortes relações com a demarcação de territórios. “É possível perceber as rotas de cada cão, os pontos para onde eles sempre voltam, assim como as coincidências entre esses trajetos. Com o tempo, você percebe que eles têm uma operação de matilha, de modo que cada cão cobre um território relativamente pequeno, mas, juntos, eles  abrangem todo o bairro”, pontua Sara.

Pelo som, acrescenta a artista, também se percebe a convivência dos cães com diferentes elementos da cidade, como o caminhão de gás e o sacolão, assim como os horários em que geralmente chegam e saem de cada ponto. “Pude perceber ainda que os catadores de lixo parecem ser vistos como inimigos, como se houvesse uma disputa entre eles e os cães pelo lixo do bairro. Os varredores de rua, por outro lado, são amigos. Além disso, há algumas matilhas que passam o dia todo em determinado ponto do bairro e não permitem que, nesses lugares, passem bicicleta ou motos. Sabendo disso, alguns motoqueiros já vêm devagar ou então chutando o ar”.

Alguns cães, relata, vivem com muita fartura, têm vários donos e camas em diferentes pontos do bairro. “Eles dormem na rua, mas recebem água, comida e até mesmo nome. Inclusive é muito comum que um único cachorro tenha diversos nomes”, observa a artista, que precisou estender seu trabalho a negociações e parcerias com o ciclo de convivência das cinco matilhas que acompanhou ao longo do processo.

“Antes de começar este trabalho, eu me imaginava como parte da matilha. Passei, depois, a me entender como observadora, mas logo percebi que também não se trata isso, não se trata de interpretar algo por eles. Por fim, identifiquei a possibilidade de me tornar um vetor, um meio para retransmitir a experiência desses cães dentro do bairro”, conclui.

Jardim Canadá
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