Mayana Redin (BR)

Mayana Redin (BR)


Formou-se em Artes Visuais em Porto Alegre-RS (UFRGS) e cursa o doutorado em Linguagens Visuais pelo PPGAV-EBA-UFRJ, Rio de Janeiro. Algumas de suas exposições individuais são “A borda o risco o mundo: experimento # 2”, no Palácio das Artes, “Cosmografias (para São Paulo)”, no Arquivo Histórico de São Paulo, em 2015 e “Arquivo Escuro”, na galeria Silvia Cintra+Box 4, no Rio de Janeiro. Dentre as exposições coletivas estão “Imagine Brazil”, Instituto Tomie Ohtake, “Hacia una nueva orilla”, em NC-Arte, Bogotá e “8a Bienal do Mercosul”, Porto Alegre. Participou da Residência Flora Ars+Natura, em Bogotá-CO, Residência en la Tierra, Montenegro-CO e JA.CA – Centro de Arte e Tecnologia, Nova Lima-MG.


[TEXTO] O apocalipse está na mesa




– Programa de Residências Internacionais – 2017 – Notícias quentes, pães frescos

O trabalho feito no JA.CA nos dois meses de residência teve como ponto de partida a experimentação de objetos feitos com massa de pão e jornais diários assados juntos em um forno caseiro. O interesse da investigação com essa matéria partiu da vontade de observar a transformação do objeto a partir da passagem do tempo, usando o envelhecimento do pão e o envelhecimento da notícia como marcos de passagem temporal.

No primeiro mês me concentrei em observar o contexto do bairro e aos poucos desenvolver alguns experimentos autodidatas com a feitura dos pães. Também me coloquei a observar os acontecimentos naquele local a partir de sua situação econômica/social. O contexto local da residência se mostrou bastante peculiar: de um lado, o investimento econômico gerado pela presença de pequenas indústrias e da exploração da mineradora trazia um cenário de contrastes, evidenciado pela presença de objetos, arquiteturas e construções típicas desses espaços onde não é possível diferenciar construção de destruição. De outro, a presença de um ar interiorano e suburbano, construído pela estrutura da comunidade, formada em parte por ocupações ilegais e em parte por casas de descanso e pela proximidade com áreas de proteção ambiental/lazer/férias, fazia do bairro um local bucólico.

Este cenário me fez perceber que a situação do comércio local era uma amostra interessante daquele contexto. A relação entre o comércio “espontâneo” bastante improvisado para servir somente aos moradores (em sua maioria, trabalhadores das fábricas, condomínios) e o comércio de luxo, especializado, que serve aos interessados de passagem, se mostrou sintomático de um desenvolvimento segregatório. Enquanto começavam os experimentos com a massa do pão e a leitura dos jornais, percebi que havia nesse contexto uma situação interessante a partir do ramo da panificação no bairro: o pão possuía um valor ideológico diferente em cada contexto em que estava inserido.

No início do segundo mês, iniciei um curso de pães em um armazém gastronômico, que tinha como finalidade ensinar receitas feitas com fermentação natural para a feitura de pães artesanais. O curso tinha como publico alvo uma classe média-alta, interessada na culinária natural e original. O pão, neste caso, foi apresentado como um alimento simples e antigo e que leva com base de sua feitura, o tempo e a paciência para a fermentação. O curso custou 500,00 e a média do preço do pão variava entre 15,00 e 20,00 a unidade. Interessada no pão francês mais popular, entrei em contato com a padeira Regina, próxima à rua da residência, para lhe pedir um dia de curso de pão francês. Passei um dia completo em sua panificadora para acompanhar o processo completo das fornadas de pão francês, que saíam 3x por dia. O pagamento foi um vaso de planta (lança de são jorge). O pão francês custava em média R$9,00 o KG.

Bastante familiarizada com a massa, continuei durante todo o processo da residência experimentando o processo de envelopar com a massa de pão, os jornais diários e também outros objetos encontrados no entorno. O processo de feitura das “esculturas”, ora me interessava mais como matéria, ora como objeto. A compra e leitura dos jornais diários locais iam formando no meu imaginário um contexto distópico e ao mesmo tempo fantástico daquele lugar. A proposta inicial, de assar os pães com jornais dentro, foi se especializando, até o ponto de conseguir sistematizar e planejar a feitura de uma semana de pães e jornais diários.

Para finalizar o projeto, decidi por contatar a mercearia Bom Preço, da esquina da rua onde fazia as compras semanais, para propor-lhes que expusesse e vendesse o trabalho em seu estabelecimento, a preço de custo, durante uma semana, em uma prateleira construída para funcionar como uma espécie de calendário. A medida que os dias corriam, os pães e as notícias iam envelhecendo e transformando o objeto.

Me pareceu interessante explorar o elemento estranho do objeto, tanto pelo viés dessa matéria informe que fermenta e aumenta de tamanho, vai fagocitando tudo que encontra, como um alienígena de algum filme de ficção científica, quanto pelo objeto final resultante. O pão e o jornal são elementos muito banais que estão contextualmente próximos um do outro. O fato de coisas tão comuns virarem, de repente, algo totalmente estranho a partir de um gesto simples de colocá-los em um mesmo espaço acabou gerando um impasse de como consumi-los, afinal, não se podia nem comer o pão e nem ler o jornal. Esse movimento de impedimento do consumo também passou a me interessar como trabalho de arte.

O experimento se encerrou no sétimo dia com as prateleiras todas completas. Não houve compra por parte da comunidade. Algumas pessoas da classe artística que compareceram no evento de encerramento da residência, se interessaram para comprar o trabalho. Assim como os pães, as notícias ficam a cada dia mais velhas, e dessa maneira, se liberam de suas finalidades para virarem objeto de arte. Comecei a me interessar pelo processo de transformação temporal mas também conceitual desses objetos. O propósito, então, era experimentar o colocar o trabalho em outro sistema de circulação, para ver o que aconteceria com a recepção do trabalho.

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